TURISMO E CIDADANIA: A Redenção das Africanidades em Porto Alegre
Roberta Fraga Machado Gomes

Entrevista:

Livro Aberto 13/08/12 - com Roberta Fraga Machado Gomes

(Parte 1) http://www.youtube.com/watch?v=jCyBU52VU28

(Parte 2) http://www.youtube.com/watch?v=-Xn80bfK1nA

A obra da Turismóloga Roberta Fraga Machado Gomes, proveniente de sua monografia em Turismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, descortina o que há muito tempo está em nosso cimento social que, por inúmeras situações, continua-se a esconder - seja por intermédio dos meios de informações, próximos aos interesses hegemônicos vinculados principalmente aos processos de invisibilidade sustentados pelos grupos tradicionais, ou pela falta de nosso próprio interesse em (re) conhecer com profundidade aspectos de nosso cotidiano, relacionados à nossa memória coletiva. Outra questão a ser ressaltada é a falta de condições de os estudos conseguirem sistematizar e registrar todos os acontecimentos e as realizações do passado humano. Diante disso, as comunidades e os indivíduos selecionam e destacam certas informações e conhecimentos.
Pesquisas concatenadas aos problemas da exclusão social e cultural têm possibilitado, na atualidade, a interpretação dos motivos que fizeram com que muitos grupos sociais - índios e negros, entre outros - tivessem as suas histórias e memórias reduzidas. Devido a isso, bairros negros de Porto Alegre como a outrora denominada Colônia Africana, localizada em regiões atualmente conhecidas como Cidade Baixa, Bom Fim, Ilhota e Mont Serrat, berços das comunidades negras remanescentes da libertação dos escravizados, estão distantes de nossa memória e, consequentemente, de nossa realidade. Contudo, tal situação tem se alterado na medida em que as pesquisas históricas, e de outras áreas humanas e sociais, nas últimas décadas têm se debruçado a nos rememorar.
Infelizmente, os conservadores tratam os espaços sociais ou os objetos do passado como indícios do que ora se quer esquecer, ora se quer mostrar. Porém, o que se vincula às trajetórias das minorias, consideradas derrotadas diante das disputas do poder e deixadas de lado durante muito tempo pela história positivista - que ainda hoje continua a ocultá-las - insiste-se em omiti-las. De certa maneira, essa situação vem demonstrando a força que o passado exerce em nosso imaginário, diante do que fora nos ensinado, seja na escola ou em nossas relações cotidianas. O que não poderia ser diferente, já que somos sujeitos historicamente construídos.
Entretanto, o passado e as estruturas, por ele construídas, não são eternos. Marilena Chauí (1995) ensina que a memória social é fruto de processos dinâmicos, em que os embates entre os grupos sociais incitam diretamente na produção de marcos memorialísticos, patrimônios históricos e ambientais, materiais e imateriais, a fim de manter ou de reproduzir determinada versão dos pensamentos e objetos como se fossem únicos, principais. Ressalta-se que essas memórias, além dos espaços tradicionais de exposições, estão nos espaços públicos das cidades. O que incita-nos a refletir, por intermédio de Bordieu (1999), na seguinte assertiva: “o privilégio do universal é instituído culturalmente pelos grupos que através de capitais simbólicos dos campos de produção cultural (representados pelo campo jurídico, campo científico, campo cultural, campo artístico etc.) que nos transmitem os seus pensamentos como únicos e vias de regra, gerais”. Muitas vezes, representados pelo uso constante da linguagem sob as suas diversas modalidades, oral ou visual.
No entanto, tem-se a oportunidade ímpar de reconhecer a memória social coletiva como uma demanda em movimento, amparada interdisciplinarmente nas possibilidades de análises das Áreas Humanas, neste caso por intermédio deste livro advindo da proposição dos anseios e curiosidades da acadêmica Roberta Gomes, sob a orientação da Professora Susana Gastal e alicerçada em pressupostos conceituais e metodológicos da História e da Sociologia, além das próprias teorias do Turismo aplicadas a vieses culturais, indexados aos anseios sociais, visando ao fortalecimento da cidadania. Embora tocada pelas intenções das trajetórias conservadoras do passado, um passado glorioso como uma única forma de identificação de um povo, de uma cultura, possível de ser intentada de outras maneiras, a memória social transforma-se e também reproduz as culturas populares das chamadas minorias, independentemente das pressões sofridas pelos grupos representados pelas memórias oficiais e tradicionais. São os embates.
A exemplo dessas situações, cita-se o Parque Farroupilha de Porto Alegre, que em virtude do centenário da Guerra dos Farrapos, em 1935, recebeu a referida alcunha dos chefes do Estado em homenagem oficial à República Rio-Grandense. Contudo, o espaço em que se localizava a via citada, desde os finais do século XIX, era denominado Campos da Várzea, constituindo-se em reduto final da antiga capital dos gaúchos. Um local de passagem de tropeiros e um espaço de convívio de negros libertos, conhecido como Campo da Redenção, da libertação.
E hoje, como as populações rememoram aquele espaço? Quais os motivos que permitem compreender, mesmo com os documentos oficiais da cidade denominando a região como Parque Farroupilha, os motivos pelos quais as pessoas (seja qual for a sua etnia e visão de mundo, e mesmo as mais tradicionalistas), por meio da oralidade, ainda o reconhecem e o chamam de Parque ou Brique da Redenção? E, mais instigante, ainda: quais os pretextos que fazem com que os transeuntes, em pleno século XXI, mesmo identificando o local como Redenção e acostumados com os capoeiristas aos finais de semana no local, não conseguem, em sua grande maioria, relacioná-lo com os negros libertos que ali viveram, ali amaram e ali comemoraram a Lei da Libertação em Porto Alegre no ano de 1884?
Além de alertar como ocorrem os silêncios e as tensões em torno do instrumento socializador da memória, concebido pelo uso da linguagem, conforme explicou Ecléa Bosi (2007), este livro torna-se referência para perceber a contribuição das populações negras para a trajetória da história, além da força de trabalho, na edificação concreta de uma memória social coletiva porto-alegrense, jamais inacabada, mas em vias constantes de transformações; e que seja também de (re) conhecimento.

Arilson dos Santos Gomes
Mestre em História pelo PPGH-PUCRS
Doutorando em História pelo PPGH-PUCRS
Primeiro Secretário da ANPUH-RS
Professor de História SMED-Alvorada