Transmutação
Claudia Gelb

UMA NOVELA DE DESENCONTROS

      As relações humanas, via de regra, possuem componentes incontroláveis, derivados de nosso inconsciente. Julgamos ser o que não é; cultivamos fantasias; agimos de maneira a justificar fatos que, na aparência, são incompreensíveis; negamos a própria verdade. Tudo isto demonstra que somos, afinal, humanos – uma denominação que assumimos sem muitos questionamentos, mas que implica numa série infindável de compromissos de natureza social, ética e, até, existencial.
      Este livro é uma novela, gênero que a cada dia conquista mais leitores, talvez por sua brevidade, talvez por seu impacto e economia de meios narrativos. Como uma novela, são evidentes os mecanismos de trazer à tona, da maneira mais breve e contundente, esses alçapões da alma, quase sempre contraditórios e desconcertantes.
      Conheço o evoluir literário da autora, que escolheu, para sua estréia, uma história de amor e transgressão. Sei de sua persistência em ser escritora e dominar as manhas do ofício, e daí que é possível entender a utilização de algumas técnicas, como o recurso a focos narrativos alternados, por vezes dando a palavra a uma primeira pessoa. No exercício de seu trabalho, a autora costura linhas ficcionais convergentes e complementares, as quais não confundem o leitor, que sabe sempre o solo em que está pisando.
      Adriano e Helena, os protagonistas, vivem um conflito que às vezes é ódio, às vezes solidariedade, às vezes alheamento. Cada qual busca, entretanto, e à sua maneira, a felicidade. 
      Provenientes de paisagens sociais diversas, suas procuras são de um status que, buscando a inserção no coletivo, representam, também, um desejo de realização individual.
      Se não controlamos nosso inconsciente, é também esse não-controle que nos permite sonhar e exercer a imaginação. Essa mesma imaginação é exigida do leitor; ele deverá preencher os vazios e intuir muitas coisas – mas afinal, a literatura nunca foi o exercício da facilidade.
      A prosa de Claudia Gelb é correta, e mesmo sendo correta, é eficaz no plano das propostas narrativas, uma raridade nos tempos de hoje. 

Luiz Antonio de Assis Brasil