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A República de Platão
a boa sociedade e a deformação
do desejo

Sobre a autora MARTHA
NUSSBAUM (1947- ) é professora de Direito e Ética na Universidade de
Chicago. Associada ao departamento de Clássicas, filiada ao Comitê
para Estudos da Ásia e membro do Comitê de Estudos de Gênero, é uma
das mais inovadoras e influentes vozes do cenário filosófico atual.
Como pesquisadora, tem-se ocupado dos problemas de ética
relacionando diferentes manifestações da cultura: literatura e
poesia com história da filosofia e política. Tem também tornado
visível a presença do passado no presente e a continuidade de
questões que pareciam corresponder a épocas histórias específicas.
RESENHA
Ao descer ao Pireu com Gláuco, Sócrates foi abordado por seus
concidadãos que o obrigam, em nome da maioria, a participar duma
pequena discussão filosófica. Com esta passagem quase teatral,
Platão e Nussbaum apresentam cenário, personagens e histórias da
liberdade de escolha e da deformação do desejo numa democracia.
O tempo histórico da escrita platônica é Atenas do século V a.C. O
personagem Sócrates retorna no texto d'A República, trazendo consigo
a discussão sobre os limites da democracia a partir da educação
moral e da formação do desejo. Sócrates renasce, na visão platônica,
para desafiar a democracia que o havia injustamente assassinado em
399 a. C.
Marta Nussbaum repensa da fragilidade de duas democracias, a
ateniense e a moderna, nas quais os desejos se impõem. Platão e
Nussbaum discutem os limites da democracia, a partir da deformação
do desejo. A democracia na República de Platão está sofrendo um
golpe fatal no momento em que Sócrates propõe medidas públicas para
disciplinar os desejos. As propostas de Platão, por Sócrates, ferem
o direito de livre escolha dos indivíduos, criando uma artificial
divisão de estamentos, eliminando núcleos familiares, censurando a
educação pela vigilância do conteúdo de histórias e de obras de
arte, e propondo os filósofos como governantes, ou seja, a minoria
que emergirá da escura caverna e que fixará seus olhos na verdade
sob a luz do dia.
Nussbaum com sua lanterna emerge do fundo da caverna escura e diz
que não devemos esquecer a obra de Platão, se não pelo conteúdo
específico de suas propostas, pelo menos em relação ao modo como
apresenta questões morais. De fato nossa sociedade não é perfeita,
ao contrário, vivemos numa sociedade agressiva, dirigida pelo ódio,
e relativamente injusta. Contudo, Marta Nussbaum crê que a
discutibilidade dos valores que fundamentam ações em sociedades
democráticas não é motivo para a remoção das liberdades que permitem
a diversidade das ações. Neste sentido, Nussbaum estabelece uma
discussão sobre o conflito entre liberdade de escolha e deformação
do desejo em nossa democracia e em regimes não-liberais, que
sustentam serem incompatíveis liberdades políticas e bem-estar
humano. Nussbaum substitui a discussão filosófica platônica baseada
em verdades absolutas, por outra baseada no discernimento ético,
como nos ensina Aristóteles. Em suma, Nussbaum nos convida para uma
reflexão sobre liberdades que se apresentam como negociáveis e como
não-negociáveis, constituindo, desse modo, uma permanente tensão. |