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Agente literário: luxo ou necessidade?
Marisa Moura
Há sempre um momento, na carreira do escritor, em que ele se
pergunta sobre a necessidade de recorrer aos serviços de um agente
literário. As razões desse questionamento, as possíveis respostas e
o amplo leque de serviços que uma agência literária oferece compõem
as bases deste artigo.
Autores inéditos costumam procurar agentes literários movidos pela
certeza de que esses profissionais conseguirão vender suas obras a
grandes editoras ou, ao menos, para uma casa editorial que tenha
seus títulos expostos em um grande número de livrarias.
Contudo, enquanto o autor alimenta tantas expectativas, o agente
literário, agindo de maneira profissional, procura sanar suas
próprias dúvidas, que se resumem, num primeiro momento, em saber em
qual gênero o autor escreve e quais os assuntos de sua preferência,
pois, apesar de existirem poucas agências no Brasil, cada agente –
inclusive no exterior – se especializa em algumas áreas do
conhecimento. Muitas vezes, portanto, após algum tempo de conversa,
o agente percebe que aquele autor seria mais bem atendido por outro
profissional.
Uma etapa pode, no entanto, anteceder esse primeiro encontro e
facilitar a vida dos dois: o agente literário pode ter procurado
esse cliente; ou, o que também é comum, o escritor sentado à sua
frente, enchendo-o de perguntas, passou pelo filtro de uma leitura
crítica selecionadora; ou, ainda uma terceira possibilidade, o autor
foi indicado por amigos e até mesmo por editores.
Mas, de qualquer forma, um primeiro contato sempre será recheado de
perguntas que refletem dúvidas simples – por exemplo, sobre
observações relacionadas à leitura de um texto recém-terminado – ou
até complexas questões contratuais.
Não é o caso dos autores já publicados, independentemente de terem
muitos ou poucos títulos, pois esses têm indagações diferentes.
Quase sempre, eles se dão conta de que, para administrar suas
relações com as editoras, é necessário um conjunto de ações
rotineiras, exatamente aquelas que tomam o tempo que eles poderiam
dedicar a criar, escrever. Na sua maioria, são autores que, por
razões diversas, estão com livros em mais de uma editora e se cansam
de organizar uma agenda a fim de acompanhar se o valor “x” refere-se
ao direito autoral da obra “y” ou da editora “a”.
Eles sabem que, inclusive, os problemas não param aí. Conforme a
obra é reconhecida por professores, críticos literários, livreiros e
leitores, enfim, à medida que ela ocupa seu espaço no universo
literário, aparecem convites para lançamentos, feiras de livros,
palestras, mesas de debates, cursos, adaptações e outros tantos
eventos. E quando o autor já se encontra nesse nível de
popularidade, ele não considera mais o agente apenas como um
vendedor de originais inéditos, mas deseja um administrador de sua
carreira. Ou seja, ele sente necessidade de um profissional que,
além de manter sua carreira literária em ordem, também o aconselhe
nos passos e nas decisões a tomar todos os dias.
E não podemos esquecer dos herdeiros dos autores. Protegidos pela
lei, eles recebem, durante setenta anos, os rendimentos das obras.
Trata-se de um grupo dividido entre os acostumados à rotina de
publicação do mercado editorial e os que nada conhecem dessa
realidade. Ambos, ao procurarem um agente, quase sempre desejam não
só a administração das obras já publicadas, mas a venda de reedições
e o trabalho de manter o autor vivo, comentado e, principalmente,
valorizado – em vez de ficarem à sorte de redescobertas ou dos
interesses de certos pesquisadores.
Diante desse quadro, a grande pergunta é: mas por que um agente
literário para fazer esses serviços? Como veremos a seguir, a
resposta não é simples.
Um agente literário é o profissional estruturado para obter,
facilmente, informações no mercado editorial e cultural, seja em seu
país de origem, seja no exterior. Ele circula amigavelmente entre
autores e editores, estando sempre atento às leis de direitos
autorais; aos esquemas de distribuição; ao marketing usado na
divulgação em diversas mídias; aos interesses dos livreiros (e seus
diferentes pontos-de-venda), dos professores, dos produtores de
eventos e dos leitores em geral; e às oportunidades de palestras e
cursos. Sem esquecer que um bom agente sabe sondar as expectativas
dos cineastas, dos diretores de teatro e dos roteiristas, procurando
manter-se ligado a todos os profissionais que estão, direta ou
indiretamente, relacionados ao texto, não importando se o consideram
uma criação artística ou um produto a ser consumido.
Tal somatório de interesses e oportunidades exige uma estrutura
mínima, incluindo, por exemplo, consultores jurídicos que possam,
rapidamente, assegurar a melhor solução nas questões relacionadas à
legislação em vigor. Por causa desse permanente contato com questões
legais, é comum as agências darem consultoria a autores e editores,
esclarecendo diferentes aspectos contratuais.
Outra necessidade do autor, ainda muito pouco considerada, é sua
presença junto ao público – incluindo a imprensa –, algo que já
consta na relação de serviços de algumas agências literárias. A
imprensa costuma enfatizar apenas o lançamento do produto cultural,
voltando ao assunto, no máximo, quando é interessante fazer algum
tipo de comentário, relacionando-o a diferentes eventos. Mas isso
sempre ocorre de maneira seletiva, o que restringe o número de
livros, filmes, peças teatrais e exposições que conseguem críticas
ou apenas uma notinha nos cadernos culturais. Dessa forma, contar
com um profissional que apresente o universo do autor e de sua obra
ao jornalista, disponibilizá-lo como fonte aos veículos/cadernos
especializados e orientar a conduta deste mesmo autor diante da
imprensa é algo cada vez mais importante. Torna-se fundamental e
necessário ter alguém que seja co-responsável por administrar,
construir – e até mesmo – reconstruir a imagem de um autor: um
assessor de comunicação especializado nessa área.
Outro detalhe imprescindível é manter um rigoroso sistema de
arquivos – em papel ou em banco de dados no computador –,
especialmente desenvolvido para controlar cada etapa da vida da obra
e do autor representados.
Toda essa estrutura é mantida pelo pagamento de porcentagens –
segundo os Guides to Literary Agents da Writer’s Digest Books, EUA –
entre 10% e 30% do que o autor recebe. Por exemplo, caso o autor
tenha $ 1.000 para receber, de $ 100 a $ 300 são repassados ao
agente. Essa porcentagem varia de agência para agência. Aquela que
representa autores já consagrados ou best-sellers pode cobrar uma
porcentagem mais baixa, em virtude do número significativo de
exemplares que compõem cada edição da obra, sem considerar os
produtos que podem derivar dessas vendas. Mas há outros fatores que
alteram essa porcentagem, como a extensão dos serviços contratados
pelo autor na agência.
Há também agências que trabalham com a cobrança de uma taxa de
entrada ou de leitura crítica – que pode ou não voltar ao bolso do
autor após a venda para o mercado. Mas é sempre importante lembrar
que todos os agentes têm uma estrutura operacional com custo nunca
desprezível, e essa taxa garante o início de seu trabalho,
diminuindo um pouco os riscos comuns nessa empresa de representação
e prestação de serviços.
E na prática, como funciona?
Acabamos de apresentar um quadro teórico das bases que fundamentam a
relação autor–agente. Todavia, tudo isso acontece na prática? Esta é
uma boa pergunta para ser respondida por autores e agentes... Se
agências prestam serviços a autores, nada melhor do que refletir
sobre os serviços prestados:
1. Venda da obra
A venda é o serviço mais solicitado: publicar em livro, adaptá-lo
para filme, programa de TV e peça teatral, ou gerar produtos
diferenciados. Contudo, a fim de que este serviço se realize,
espera-se um autor consciente das características básicas de sua
arte. Assim, ele deve ser sincero, falando abertamente com o agente
sobre suas fraquezas e seus diferenciais.
Na verdade, alguém só se considera autor quando tem uma obra
publicada em qualquer meio; e por essa razão acaba não considerando
que a espera pode ser um ponto a favor de sua carreira literária,
pois pode preservá-la para parceiros que o respeitem e paguem
corretamente seus direitos autorais.
2. Análise ou elaboração de contratos e autorizações
Trata-se de recurso ainda pouco utilizado por autores brasileiros,
mas prática comum no mercado cultural do nosso país. Ao desejar esse
serviço, o autor pode pensar em um advogado ou um agente, já que
ambos estão preparados para conceber contratos que, apoiados na
legislação vigente, estabeleçam direitos e deveres iguais às partes
envolvidas, conforme as necessidades da obra contratada.
3. Administração de prestações de contas e dos valores recebidos
A administração de direitos autorais usa três modelos diferentes no
Brasil: a) o autor recebe todos os valores e o relatório de vendas,
e repassa a porcentagem da agência e a cópia do relatório; b) a
agência recebe todos os valores e duas cópias do relatório de
vendas, e repassa ao autor sua porcentagem e uma via do relatório;
c) a entidade ou empresa pagadora, informada ou por contrato ou por
procuração, paga separadamente o autor e o agente, enviando uma
cópia a cada um do relatório de vendas. Os três modelos necessitam
de disciplina e honestidade das partes envolvidas.
4. Participação em eventos
Quando o autor já tem seu nome estabelecido no mercado – isto é, as
editoras desejam ou encomendam obras; ele possui adaptações para
cinema, televisão e teatro; e a imprensa publica notícias com
freqüência sobre sua vida ou sua obra –, ele é procurado para
eventos, pois os organizadores destes acreditam que nomes famosos
atraem público. Na “agenda” da agência, a administração de qualquer
tipo de evento é apenas uma informação a mais a ser considerada.
Contudo, a administração dos eventos pode ser independente e
opcional em relação aos demais itens do contrato, com negociação de
porcentagens específicas para cada caso.
5. Adaptações para cinema, teatro e televisão
Antes de considerar a adaptação da obra para outro meio de
publicação, o autor deve estar consciente de quais as possibilidades
de sua obra transitar por outras linguagens. E é sempre bom
salientar que, no Brasil, o cinema e o teatro dependem muito de
prêmios, incentivos do governo, patrocinadores e permutas, e um
grande número de adaptações é feito apenas graças ao esforço, quase
sempre sem pagamento, de produtores ou diretores.
6. Licenciamento para outros produtos
O licenciamento aparece na literatura quando o autor ou sua
personagem transforma-se em uma marca capaz de chamar a atenção do
mercado. Hoje, esse tipo de atividade está voltado basicamente para
o público infantil e juvenil. De uma forma ou de outra, o autor deve
preocupar-se em associar sua pessoa ou personagem a produções de
qualidade.
Um ou mais agentes?
Se uma obra, ao ser editada, demonstra fôlego suficiente para ser
traduzida para diferentes países, um novo problema se apresenta ao
autor: se ele já contratou um agente no Brasil, por que não outro no
exterior?
No caso específico de um autor cuja obra é reconhecida – e já tem um
agente em seu país de origem –, ele pode descobrir que precisa de um
agente exclusivo para cada uma das atividades e diferentes usos de
sua obra. Depois, será natural necessitar de um agente no exterior,
pois nem sempre o autor tem fluência em vários idiomas ou tem como
verificar se as ofertas que recebe do estrangeiro são realmente
interessantes. Hoje em dia, nota-se um movimento de parcerias entre
agentes do mundo todo, a fim de reduzir a agenda e alcançar maior
penetração regional.
A relação ideal
Diante do exposto, seja qual for o caminho escolhido, o importante é
que a relação entre o autor e o agente seja transparente, leal e
produtiva; que se estabeleça um fluxo de informações capaz de
multiplicar a valorização da obra. O autor deve refletir a fim de
que suas decisões possam, inclusive, influenciar no crescimento
econômico da agência contratada.
Escrever sobre a contratação de um agente literário no Brasil, onde
as relações profissionais da área cultural dependem de questões
pessoais e de idiossincrasias, e onde os grupos e os modismos são
mais respeitados do que os gêneros e os estilos da escrita, é um
risco que resolvemos correr com um único objetivo: mostrar que a
cidadania autoral vai além da produção escrita, que, muitas vezes,
exigiu anos de trabalho árduo e pesquisa.
Ou seja, o autor não deve se esquecer jamais de que o agente
literário age sobre algo: obras, informações, idéias, contratos etc.
Mas o único, o exclusivo fornecedor desse algo será sempre o autor.

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