Virginia do Rosário


Imprescindíveis

o que te dana, Alfonsina?
tamanha expansão do amor
tua argêntea palavra
risada tão escarlate
tanto óvulo explosivo
tudo entregaste ao mar


o que alucina Sílvia?
o que tortura Virgínia?
o que perturba Cristina?


que desencontros te abismam
Madalena
Bovary
Hedda Gabler
Ana Karenina
no mesmo ponto de encontro?


rios de sombras nos devoram
arranha-céus trampolins
venenos punhais nas veias
gás bombas guilhotinas
trens fantasmas sem destino
forca espoleta no peito


enquanto estanco as goteiras
ou quando a casa cochila
uma eminência parda
me peneira me limita
me apaga fecha meus livros
meu vôo desequilibra


se uma de nós vacila
há de fender a alquimia
que a todas nos unifica
_ Lisístrata ainda rutila
em riso e raiva
de Atenas aos nossos dias


É tempo

é tempo de mãos ao alto
tragicomédias à mesa
medusa em nossas cabeças
ausência de uvas nos palcos

tempo de tetos de estrelas
muito deus, muita senzala
guerras, birras, boletas
rasa política _ ou rara

falta ar, chispa, atração
tempo de barrigas ocas
e de neuro-aspiração,

de aviar a contra-mão
musicar as vozes roucas
e gritar, em coro, não


Luxo

Sacos
escracham
os despojos
nas ruas
por onde passam
os pés
e as idéias


as papilas
e as mãos
escarvam
exploram
obram
dão ciência
do que somos:


baratas
à Kafka
inda que
eufêmicos


Poder

Teus olhos
fatiam
escuros
universos
que expurgam
à luz
a carne crua

Uivam,
gritam,
purgam.

De onde buscas
poder
tão pungente
força
tão hercúlea
que ausculta,
curva,
se desnuda
e avulta,
e, depois,
minúscula,
mansa,
recua
afaga,
abraça,
em fogo,
só ternura?

Sol ambíguo

a madrugada derrama
insônia em nossos olhos


os jornais matutinos
maquilam as olheiras
dos beirais do século
corpos calcinados
como fantasmas
saltam do passado
a cada página folhada

a efígie verde
profana
rios, florestas, bichos
o bicho humano
deuses brancos dançam
provocam chuva de enxofre
sobre a vida incerta

a manhã veste luto
aparentemente não há poesia
crianças e mulheres
arrancam, todavia,
vigor do sol ambíguo
sabem de cor
a partitura de suas lágrimas

e recompõem a sinfonia
dos risos