Monique Revillion
SUSPENSÃO
Havia uma luz que transcendia
os objetos e os seres de sua
ordinária lida,
coisa, função, finalidade, trilho,
potencialidades de esperança e
desatino.
Também se fez o vinho, coreografia
antiga, pausas,
safiras e rubis suspensos no ouro da
palavra.
Um homem e uma mulher em margens
pressentidas,
uma mulher e um homem em solidões
contíguas.
Olharam a fartura como quem desdenha,
a fruta que se oferecia, cálida e
madura,
a plenitude que mal se construía,
oratório vazio, fé ausente, profana
ruína.
Esvaiu-se, a areia, na erosão da
cena,
queda vertical, gravidade
inescapável,
e o que era engendro, oca miragem,
de novo silêncio, deserto, precursor
do nada.
GRANITO
Preciso me concentrar em coisas que
já não me interessam
desejo o verso
latitudes de água, sutil cartografia
e invejo a amiga, de partida.
Ela vestiu um orgulhoso avental de
rendas,
ele cruzou o oceano para um beijo de
língua.
Juntos,
tem fé, prontidão, ricto de mel e
madressilvas
e gestam palavras maduras.
Penso em ti,
(e todas as horas são horas vazias)
oblíqua dor, grito de Frida Kahlo,
morte antiga.
Posta em silêncios, legenda
indiferente,
tua voz de veios insepultos
nega o milagre, não ecoa, nem verte
apenas cala
e cúmplice, prolonga a agonia.
ARTE DA FUGA
Quando ele partiu
- e para que partisse -
engendrei que amava Giselle
(qualidade daquilo que rodopia no ar).
Ela toca violoncelo
e é extrema
e é rarefeita
como uma escarpa no Tibet.
Tem olhos de lavanda
gestos profundíssimos
e sussurra je t´aime ao entardecer.
juntos, escutam Bach,
e toda a música
que começa e termina em dó.
Num dia branco, dei forma a Giselle,
e ela, impossível
me tomou o lugar.
RIO
Pudesse, teria um rio
a meio caminho, ao alcance,
com seixos e peixes de prata,
margens de areia encorpada,
um pescador renitente,
sapo,
regaço,
mormaço,
corredeira de pedras, calmaria,
a ensinar que a vida pode ser isso
ou aquilo,
mas não deixa de passar.
Pudesse, seria um rio,
e me faria nascente, potável,
à espreita
do desejo dos meninos
em dias de verão.
