Maurício Chemello


O não-dito

Desfaço-me das letras aqui prensadas na folha morta
Desfaço-me da significância irresponsável lançada aos olhos
É preciso descartar-me da ciência
Recorro aos urros
Recorro ao pé no chão em disparada ao negro mar de terras férteis
Um lançar de joelhos na carne em barro
E cravar as unhas no que seria ode aos carvalhos
E alimentar-me da minha terra
Engolindo-a com amor
Com a fome de seu amor
Aterrar-me de sua naturalidade

E é quando percebo que arrancar-me os olhos foi o maior bem
Deixá-los partir em busca do que ansiavam
Um outro chão construído pelos deuses da fornalha
Distante da minha amada terra desconhecida
Indo onde desejavam estar, desde que me ensinaram que tudo vem de lá
E aqui, nesta pobre, perdida, descoberta
Havia alusão a paraíso
E mais nada
Nem letras
Nem formas
Nem armadas

Aqui havia vida desperdiçada
E mesmo assim jogaram meus pais nestas praias
Para apossaram-se do que fossem capazes
E fomos
Aprendi com todos os professores
Lá é que as aves gorjeiam
Aqui é de um amanhã que tardará
Por isso como da terra que me criou
Como da terra que me nasceu
Para tê-la em mim
Mais do que o que eu realmente tenho
E não deveria ter
Mas quero, e desejo muito a partida,
Mas não deveria desejar
Olhos voem e voem para não mais retornar
Eu engulo minhas raízes
Minhas raízes...



Quanto mais, menos.

A pele é tola
transpiração
O corpo perdeu a pouca
inspiração
A malícia dos ventos que me trazes ao dizer
O simples
Aquilo que sempre desejei ouvir
por terra agora
O mais sério de todos
cai

A beleza do adeus é sempre
uma estranha
O triste é não poder
repeti-la,
numa volta,
uma nova aliança,
jamais.



O Vigia

O segredo desaparece quando as nuvens passam e me descubro
sob um céu em desabamento contínuo
Onde estão os pilares do mundo?
Minha fraqueza maior é perguntar
o que farei com a resposta?
E me escondo

Não te parece o sol ser um vigia do sensível?

Diante de minha escultura
eu caio
ela que é a minha pretensiosa semelhança
imortal
Por quê não há em mim a idéia original?
Sou todo frio do mármore
já não me serve o sol
sou o reflexo de minha imagem

O caos é uma benção passageira
Como pode sobreviver a si mesmo?
Como posso sobreviver a mim mesmo?
Como posso desvelar-me?

Sorrio ao ver a chuva me beijar
e a luz do mundo apagar-se
mais uma vez.



Segue a cena da cova e o morto segue poema

Não há som
não há voz
não há homem suficientemente sábio
e quanto mais só
mais inteiro num mundo meu
sem som
onde deveriam ribombar em vozes

Caros inimigos
parceiros de existência
não me canso da ferida reabrir
é um feito, pequeno, bem se vê
inútil, até
loucura individual que me devora

Não calo
sem língua sem forças sem boca
não me entrego não me rendo
quero ser maldito pelas suas línguas todas
porque nenhum de nós é justo
e eu sou aquele bobo cujo crânio apodrecido em cova exposta
só aos indecisos realmente importa



O livro das respostas


Respostas vêm com o andar,
é certa a questão,
por trás dos olhos
para além da carne,
é inerente incompreender,
para antes dos passos
da palavra inicial,
um certo princípio de ação,
respostas
vêm com o andar

Atuar fantasiando a sombra de ser,
observar que do espelho dos lagos
o melhor ali está,
errar desfazendo caminhos
ao ponto de se desgovernar em pares,
há razões para tanto,
encanto num pranto estanque de um olhar,
respostas sorriem
de diferentes lugares

Copio a fala recorrente,
copio a letra harmoniosa,
reclamo o pensamento comum descrente
enquanto me sirvo da mesma alma que retorna,
reservo uma ânsia,
um profundo desespero
no eterno velho homem-erro
me aprisionar

Banho-me com perguntas detestando conformismo,
prolifero com o passar de meus anos o mesmo pesar,
herança que amaldiçôo
em vidas prováveis que anseio
o puro prazer da pergunta,
esquecer que as respostas não se escondem,
se revelam com o andar

Portanto,
em dúvida perene,
parto
Portanto,
em busca essencial,
parto
Suponho que aprendo o que não entendo e não pretendiam meus pais?
Releio o que veio do erro e não concebo o grande desejo que hoje me faz o presente
que vai

Portanto,
parto,
porque
por de trás dos olhos,
para além da carne,
para antes de meus passos,
outros partiram,
se permitiram
e as respostas...
somente
vêm com o andar