Claudia Gelb
Cheque sem
fundo emocional
Cheguei à maturidade
consta no meu RG
mas pra cada lado que olho
angústia é só o que se vê.
Difíceis são os meus dias
eternos suados sem fim
outrora corridas felizes
as horas eram assim.
Cheguei no limiar da vida
e não atino a saída
se a morte é paliativo
meu Deus: me dê um motivo.
Difíceis e derradeiros
esses momentos no ar
amanhã, quem sabe, a certeza
viver é recomeçar.
O ser
humano é só verniz
E um dia acabou-se a farsa
foi-se também o mistério
o que parecia simples
de trivial fez-se sério
O homem perdeu a pose
desfez-se pra sempre o encanto
passou, tal qual o poeta,
do riso ao pranto
Olhou-se então no espelho
e imagem não encontrou
o brilho partido e fosco
foi só o que alcançou
Então lembrou-se da origem
e do começo de tudo
tentou ainda uma volta
mas só tontura
V
E
R
T
I
G
E
M
Perseguição
infecunda
Não encontro a veia poética
nem com o auxílio de arpão
tento romper a estética
mas como sempre é em vão
Sofro a angústia da influência
de todos que me precederam
só o que sobra é a ausência
de versos que sequer nasceram
Não sou o novo poeta forte
e sei disso há muito tempo
criação exige talento
não é só uma questão de sorte
Definitivamente
não sirvo pra ser efebo
sou célula
única
placebo
Reminiscências poéticas...
A ponto de partir me dou conta da
incompletude.
Ora bolas, e se era só uma
disciplina?
Mas confesso tive medo e não
decifrei o enigma.
Sentada ou na cama tive ímpetos de
desistir
mas uma voz que não sei bem se era
Deus
dizia atônita e entre gritos:
“vai, vai ser feliz fazendo versos!”
Entendo porque Ana pulou para o
abismo.
A tal da angústia ser fala entupida
verdadeira morte em vida.
Mas não, esse fracasso também eu
experimentei
ao longo de décadas insanas
andando na corda bamba
rindo como uma louca
quando qualquer alegria era pouca
e mesmo com tantas overs
sobrevivi.
Eis-me aqui, senhor
fazei de mim um instrumento que me
dê paz!
O instante é breve, porém loquaz
ainda vivo, ainda pulso
eu quero é mais!
Intensidade
São tantas as privações
quanto as bombas terroristas
São tantas as emoções
que devo ser equilibrista
São tantas as confusões
para um só psicanalista
São tantas as pulsações
que virei arritmista
São tantas as contrações
que sinto o parto chegando
e, de repente, sou artista!
