Carla Laidens
Poema
palavras
escondidas
disformes
formas
nascem
pedras
polidas
colhem
vida
deslizam
pelo tempo
discorrem
morrem
carnudos
frutos
abocanhados
ressuscitam
entranhas
correm
veias
digeridas
escapam
partículas
sementes
ao vento
Esvoaçar
Intempestiva a cortina avança pela
janela
teve coragem de enfrentar o vento
soube sua necessidade:
movimento.
Postou-se vida afora
a refugar o mofo
a provar dos ares
a sorver o lume
ensaios de um esvoaçar sorridente.
Até os insetos devolverem-lhe a
realidade...
Adormeceu a sonhar o nascer do dia
um outro maior
em que se romperão as presas.
Leve
Não quero ser mais um enfeite
daqueles que vestem e ornam espaços
vazios da casa
desses, que ali parados contemplam a
vida
cobertos de pó, a esperar em
silêncio
o suave e breve beijo de um espanar
ou apenas o despretencioso toque do
ar.
Quero é ser esse sopro
etéreo, assim sem rumo
que por onde passa todos sentem
a adentrar leve, vaporoso e forte
e que quando ama
torna-se brisa
acariciando o corpo amado
como se fosse língua…
Versos partidos
Desassossego
marcas na carne
sangue a escorrer
dos olhos dos lábios do coração.
Vivo e morro
todo o tempo
tuas cicatrizes em mim
meus pedaços em ti.
Condenados
somos a estarmos sempre,
mesmo não estando.
Tuas marcas me ferem
me cortam
me constroem
uma outra
um eu todo meu
pedaço também teu.
Minha carne mordida
mastigada digerida
torna-te um outro
um eu todo teu
pedaço também meu.
Nada somos
nada temos
entanto sempre seremos
partes de um mesmo espelho
criador criatura
criatura criadora.
Inexistir
Inexistir é uma tarefa árdua. Todos
os dias deve se tecer um pouco de
sua trama. Hilário perceber que
ainda alguns poucos me acreditam.
Pobres. Fico rindo de minha própria
dor e sequer percebem. Não tenho
capacidade nenhuma. Minha beleza é
uma miragem. Debaixo dessa pele,
escondo uma personagem nua, de vida
amorfa. Tudo o que possuo e toco,
estrago. Nada me basta. Tudo me
sufoca. A vida me cansa. Minha
imagem me afoga. Não sei ainda
porque resisto. Consegui criar um
lindo monstro do qual muito me
orgulho. Ele cresceu e agora me
abraça forte, cada vez mais forte.
Me beija e me sussurra doces
palavras e tenta presentear-me uma
última chance de felicidade. Ainda
reluto. Mas esses últimos dias têm
sido cruéis. As mentiras revolvem-se
debaixo dos tapetes. Clamam a
retirada das máscaras. Eu venho
pensando em ceder. Ando já sem
forças. Penso em dar-lhes a devida
razão. Ranjo os dentes. Tenho
insônia. Mataria por pura inveja.
Nada que faço, faço bem. De todas as
coisas, tenho apenas a metade.
Inteiras me doem e me custam por
demasiado caras. Os olhares só me
fazem bem se me desejam. As palavras
só me soam legíveis se me elogiam.
Ninguém é bom o bastante. Nada é
sincero. Nenhum momento me parece
tocante. Coisas belas cansam-me ao
enjôo. Talvez eu realmente o ame,
sim meu monstro, talvez. Apesar de
ter a certeza de que nenhum amor
seria capaz de salvar-me. Agora tudo
isso pouco me importa. Então sua
faca cruzou o meu corpo várias vezes
e de nenhuma delas fui capaz de
defender-me. Perdi todo o sangue que
ainda insistia em correr rápido com
aquela nojenta voracidade de vida.
Aceitei com paciência e gozo o
presente: minha inexistência
adquirida.
