Bernardo Moraes


Dançar

Vejo-me de asas abertas
Livre de fantasmas e culpas
Máquina e homem,
Rumorejando o som de turbinas
Numa imensidão de ar rarefeito.

Atalho entre duas nuvens
Um caminho imaginário
E flutuo entre os fios dos sonhos
Das doces mulheres adormecidas.

Sou livre, mas tão pesado
Minhas mãos de aço saboreiam o vento
E aproximo-me do oceano tão grande
Que me olha com seus olhos de profundezas.

Como seria bom ser tudo, ser todos
E alimentar-me dos risos e melodias soltas
Subir e descer nas pistas de pouso, pistas de dança
Dançar sozinho, acompanhado, tanto faz
Mas dançar, sempre dançar…


As duas odisséias

Ulisses, meu caro amigo
Te vi passar pelos mares de lá
Enquanto na praia bebia drinks gelados.

Acenei, mas não me viste
Amigo mal-agradecido, pensei
Eu que te dei as idéias das viagens.

Teu barco sumiu no horizonte.
Minha consciência sumiu num cochilar.

E nos encontramos, pouco depois
Em algum lugar entre as duas odisséias.

 

Brincadeiras

O tempo é invejoso
Rouba-nos momentos curtos
E guarda em seu profundo cofre.

As lembranças correm para trás
Num campo sem fim, sem som
Perfumado com o hálito açucarado do passado.

E nós aqui, ao redor da mesa
Esforçando-nos para fazer o relógio parar
Qual nossa surpresa ao perceber os ponteiros adormecidos!

Se por falta de pilhas ou coragem,
não importa: o tempo parou
como criança que dorme quando os adultos vão brincar.

 

Suficiente

O sufuciente, me recordo
É uma lenda distante
Suficiente é um gole
Quando temos barris.

Derrama-se o vinho sobre a borda
Do cálice, e cale-se, de uma vez
Para que eu possa beber em paz.

Suficiente é um sussurro
Quando temos vontade de gritos
Suficiente é uma melodia
Quando temos orquestras.

E orquestrados, dançamos
Pelos telhados das casas adormecidas.
Para que dormir, afinal, quando podemos dançar?

 

Sorriso

Dos anseios dos poetas
nasceu um anjo tímido
falava uma outra língua
falava e ninguém ouvia.

No sol da manhã nova
Deitou-se na grama da praça
Cercou-se de crianças
E brincou sem dizer palavra.

Ao final do dia
Estando o alto sol já sonolento
O tal anjo recolheu as asas
Acolheu o sono e partiu.

Deixou para trás palavras não ditas
Sentimentos sinceros, porém escondidos
Uma ou duas dúvidas cruciais
E um sorriso ainda não decifrado.