Hoje (é sempre um
dia muito bom para morrer)
Um dia bom para morrer
é sempre hoje. A alvorada
nos engana. Hoje é o dia.
Ir ao bar com alguns amigos,
sorrir de qualquer coisa,
mostrar, solene, nova poesia.
Nada nos leva até a aurora
pela mão. Vamos seguindo,
sós, como vimos. Sóis nos dirão.
Um dia, rindo, em alguma praia.
Ou amando, quem sabe,
na escuridão do quarto-abrigo,
bombas explodirão
o novo ano e nossa vida
será quase isso,
quase aquilo,
breve biografia sem senão.
Nódoa
Há um sabor amargo de café,
nódoa no brim, em cada
jeans,
e, no canto do olho, uma
lágrima
que, há décadas, se
cristalizou.
Há um sabor amargo, mas
algum,
uma nódoa poética, que me
trai,
pois não pertence a ti. E
esta
lágrima que não cai, não
cairá
jamais. Não vem de mim