Kátia Maccés
 

Passeio de domingo

 
E se perderam no parque
como se possível fosse
encontrar na jaula dos leões
a criança que sumira
na penúltima visita. Nada
 
denunciaria os olhos tristes
por trás das lentes escuras
e, do sorriso da boca, o giz
da secura, nada denunciaria
que se perderam no parque
como se fosse possível
encontrar-se.
 
Hoje (é sempre um dia muito bom para morrer)

Um dia bom para morrer
é sempre hoje. A alvorada
nos engana. Hoje é o dia.
Ir ao bar com alguns amigos,
sorrir de qualquer coisa,
mostrar, solene, nova poesia.
Nada nos leva até a aurora
pela mão. Vamos seguindo,
sós, como vimos. Sóis nos dirão.
Um dia, rindo, em alguma praia.
Ou amando, quem sabe,
na escuridão do quarto-abrigo,
bombas explodirão
o novo ano e nossa vida
será quase isso,
quase aquilo,
breve biografia sem senão.

Nódoa

Há um sabor amargo de café,
nódoa no brim, em cada jeans,
e, no canto do olho, uma lágrima
que, há décadas, se cristalizou.
 
Há um sabor amargo, mas algum,
uma nódoa poética, que me trai,
pois não pertence a ti. E esta
lágrima que não cai, não cairá
jamais. Não vem de mim
 



Kátia Maccés é jornalista e editora do suplemento dominical de televisão do Jornal A TARDE, de Salvador, Bahia. Lançou, em 2002, o livro de poemas "De Volta à Caixa de Abelhas", pelo selo As Letras da Bahia. É autora do inédito "Vacilos da Vocação".