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Joca Reiners Terron
No centro
Um bar diante do cu de bronze
do cavalo do Duque de Caxias,
que, à guisa de enigma, fica
na praça princesa Isabel:
isto me faz sentir tão inadequado
quanto o brônzeo ânus desse
quadrúpede, afinal que faço
num boteco no centro da
cidade, alvejado por perdigotos
discursados pelos beatniquins?
No entanto o não-caber no mundo
move e se cumpre, ocupando
tudo: eu, cascos de cerveja, o Ceará-
dono-do-bar e até mesmo o cu
eqüino, buraco negro e cego
como uma galáxia prestes
a nos engolir sobremaneira.
E entre mugidos ou seja lá que
impropérios assoprem cus de
estátuas eqüestres, nos dissolvemos,
Caxias, princesa Isabel, praças,
bêbados, vosmecês e eu:
sob o vasto merdaçal de pombas
sob a penumbra onde já não vejo
gestos
sob asas que não deixam rastros nem
sombras
sob a mira da gigantesca merda de
bronze
que certamente uma hora soltará o cu
desse cavalo.

Poeta, romancista,
desenhista gráfico e editor, Joca Reiners Terron
é autor dos livros "Eletroencefalodrama", "Não há nada
lá", "Na curva do rio sujo", entre outros, e criador da
editora Ciência do Acidente.
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