Helena Villar Janeiro  
 
AMADAS PELOS DEUSES

tradução de Henrique Marques Samyn


I. FRASILIA

Frasilia será sempre nova
porque os deuses a quiseram junto deles
quando abria-se em flor
qual fosse a primavera.

Frasilia era filha de um pai nobre
que pagou a um poeta
para que compusesse este epitáfio
e a um escultor que lhe refez o corpo com branquíssimo mármore
para que ela pudesse guardar atemporal com a mão esquerda
o fúnebre botão da flor de lótus
e esticar com a direita
a dobra da saia imaculada.

E também era filha de uma mãe nobre
que chorou desesperada o desígnio dos deuses
e rodeou de anêmonas
– estas que são levadas pelo vento –
trazidas desde Olímpia
a sua face carnal.

Frasilia vive agora no museu de Atenas,
rua Panepistimio, bem pertinho
da grande praça Sintagma
onde os gregos chamam as coisas de cada dia
com nomes que mantemos asfixiados
pelas solenidades.

Atenas, 4 de março de 2000


II. ALDARA

Será sempre Aldara pequena
porque Éolo a raptou enlouquecido
com um braço gigantesco e ortopédico
vestida com casaco, com mochila
e livros rabiscados.

Não houve na paisagem
folhas, flores nem frutos que ressaltassem a palidez
do seu corpo deitado entre aqueles brinquedos derrubados
que o deus pôs nesse jogo
de namorados.

Mancham as linotipias e papéis
palavras de políticos,
técnicos periciais e até seguradores
para um néscio epitáfio aleatório
capaz de macular todos os prantos.

Aldara dorme agora no museu dos mortos
para acordar efêmera e formosa
na primeira das rosas florescentes
em cada mês de abril.

Ría de Arousa, 28 de novembro de 2000


Helena Villar Janeiro nasceu em Lugo, na Galiza, em 1940. Licenciada em Filosofia e Letras pela Universidad Complutense, foi professora de Língua e Literatura Galega em Santiago de Compostela. É membro fundador do PEN Club da Galiza e secretária do mesmo. Como escritora, obteve os prêmios de poesia Eusebio Lorenzo Baleirón (1992) e Miguel González Garcés (1994), dentre outros; e os prêmios de narrativa Breogán (1990) e Rodríguez Figueirido (1991). Seus livros infantis foram incluídos no Catálogo White Ravens da Internationale Jugendbibliothek de Münich. Atualmente, preside a Fundación Rosalía de Castro. Henrique Marques Samyn, o tradutor, é poeta e ensaísta carioca.
Os dois poemas de “Amadas pelos Deuses” -- Frasilia, composto em Atenas, em uma visita ao museu arqueológico; e Aldara, criado a partir da morte de uma menina, quando saía da escola, em um grande temporal na ilha de Arousa -- tratam, segundo a autora, do “cruel desígnio dos deuses, apesar de todas as suas maravilhas; feitos que também pelos poetas devem ser cantados como um alívio para a dor”