Cida Sepulveda

Sangria


Bem que tentei
Já era tarde então
Cecília no leito

Desci a rampa do hospital
O ar úmido entristecia mais

Pensamentos debulhados
Sobre paralelepípedos

Árvores negras
Cheiro de marmitas sujas

Andei

Por avenidas que desertavam
Asfalto e solidão
Nos pés

A chuva começou
Catei gravetos para o futuro

Antes de correr
Para dentro da choupana

Cecília ruía
No interior das almas

Cabelos escorridos
Plumas por onde
Suas mãos mentiam

Avisos não valiam
Perdi a noção dos gritos

A aurora despencou
Antes de abrir

Meses cortavam esperanças
Sangria de palavras

Enfiei a mão no escuro
Achei o nó da vida
Vertia mágoa

A cobra picou
O tempo que restava

Me arrastei até a guarita
Cecília soluçava

Teus braços
Ao redor dos sentidos

Distraí olhar para o lago
As águas tremiam

Cida Sepulveda, formada em Letras ( UNICAMP), mora em Campinas - SP. Escreve poemas e contos. Publicou Sangue de Romã (2004). Foi finalista do 1o.
Concurso Contos do Rio com "O Açougue", promovido e pelo Prosa e Verso, do
jornal O Globo.. Aguarda publicação, pela Bertrand Brasil, do livro de
contos "Boca Suja", sobre o qual o poeta Manoel de Barros fez o seguinte
comentário: "... Esse Boca Suja é duro cruel e seco, mas pela linguagem você
o fez atraente e belo. Um estilo! Desesperador. Que zomba das tiranias
semânticas. E renova o nosso idioma..."