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Celso Borges
breves impressões
tiradas de um jornal
448 dias antes da morte de joão
cabral
o tempo passa penso
joão pensa mas não vê
não mira miró
não se ilumina
não arquiteta palavra no papel
não sabe ditar nem geometria
joão cabral de melo neto
não ama
não dança
não sevilha
não descansa
não joga futebol pelo américa de
pernambuco
joão cabral de melo
não mata
não toma aspirina
não severina a dor por trás da
retina
não constrói
não rói a parede de apipucos
joão cabral
não amadurece
mas escuta em silêncio o silêncio
- a música da morte -
e cultivando seu deserto como um
pomar às avessas
joão apodrece
matadouro
a baba do boi é do boi
o berro do boi é do boi
a dor do boi é do boi
a morte do boi é do boi
mas o boi não é do boi
o carro de boi não é do boi
a bosta de boi não é do boi
a língua de boi não é do boi
a costela de boi não é do boi
o chifre de boi não é do boi
o couro de boi não é do boi
a carne de boi não é do boi
não é do boi o bumba-meu-boi
quase nada do boi é do boi
quase tudo do boi é do homem
e o que é do homem o bicho não come

Celso Borges é de São Luís do
Maranhão, onde nasceu em 1959.
Poeta, jornalista e letrista, vive
em São Paulo há 17 anos. Parceiro de
Chico César e Zeca Baleiro, entre
outros, tem seis livros de poesia
publicados: Cantanto (1981); No
instante da cidade (1983); Pelo
avesso (1985); Persona non grata
(1990); Nenhuma das respostas
anteriores (1996) e XXI (2000), este
último um livro/CD. Lança ainda este
ano Música, com a participação de
mais de 50 poetas e compositores.
Nos últimos dois anos apresentou-se
no Tim Festival (SP) dentro do
projeto Bumba Beat, de Otávio
Rodrigues (2004); Baile do Baleiro,
do compositor Zeca Baleiro (2004); e
projeto Outros Bárbaros, do Itaú
Cultural.
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