DE COMO LIDAR COM RIO
Represar um rio é
impossível
O rio insulta a barragem.
Se sustém uma folha
calma de lago,
amplia suas pernas de Heráclito.
Veloz, recortará
efígies das escarpas
e nas curvas fará ondas de mar.
Mas se segue da
nascente à foz,
na outra margem é que está a flor.
Não é pisando em
peixes
que conseguiremos atravessá-lo.
Largo, pinguela nele
não cabe,
ponte não nos dará conhecê-lo.
Não seria sábio
auscultar
o diário vaivém dos pássaros?
Com os braços dar
forma
ao nosso sonho de asas?
De dentro domá-lo
para sempre
com um simples remo?
À MODELO-VIVO
quisera ser um
pintor,
com o que ficavas aqui,
para sempre do meu lado.
porém nada sei de
tintas,
não, sequer sou o escritor
capaz de fixar tua pele.
palavras não
reproduzem
os óleos de tua vagina,
o que de grego nos seios
e na mente tu
carregas:
contra a morte do tempo,
tua eternidade de rio.
ELEGIA DA CANTORA DE ÓPERA
Aquela voz perdera o
filho na enchente,
não mais o veria brincar, enlutada
cantava a perda do que fora a semente
que uma noite subira-lhe
a escada
das trompas até aninhar-se num ovo
cúpido, com o que se sentira dada
a prosseguir pelo
mundo com um novo
alento; como quem traz do sol um raio
para que numa fresta lhe acenda o covo
do olho após um
pesadelo, esse gaio
filho a recuperou do que lhe ia a custo.
A escuridão se lhe iluminara em maio,
quinze, de um ano
sem maiores sustos,
e agora se extinguia a luz no subterrâneo
da água, e ninguém lhe ergueria o busto.
Cantava, que chorar
lhe inundava o crânio,
que mais seco era o seu fim de chorar,
sem medo do modismo contemporâneo,
do próprio gestus
musical a destoar.

Sidnei Schneider reside em Porto Alegre (RS), é
poeta, tradutor, contista e bacharelando em Letras/Inglês
pela UFRGS. Autor de Plano de Navegação (Dahmer,
1999, poesia) e tradutor de Versos Singelos/José
Martí (SBS, 1997). Participa da Antologia do Sul
(Assembléia Legislativa-RS, 2001, poesia) e de outras
seis publicações resultantes de concursos de conto e
poesia. 1º lugar no Concurso de Contos Caio Fernando
Abreu, UFRGS, 2003 e 1º lugar em poesia no Concurso
Talentos, UFSM, 1995, de um total de dez premiações.
Publicou artigos, poemas, contos e traduções em jornais
e revistas.