CAFÉ SOLÚVEL

Acordar.

Sair da confusão de resquícios oníricos, aquelas partezinhas pegajosas e sem nexo de alguma outra vida, e voltar ao quarto onde estava noite passada.

Abrir os olhos.

Livrar-se de mundos de lençóis egoístas.

 

(O apartamento, estranhamente frio, seguia impregnado de silêncio e da vulnerabilidade dos que dormem.

Havia um corredor, interligando os cômodos, que era alheio às realidades privadas: nada sabia dos amantes mortos sob camas desarrumadas, nem das migalhas jogadas a estes. Com todos os seus ladrilhos e paredes repletas de pequenos quadros de lugares felizes, era inocente. Um corredor inocente.)

 

Levantar-se da cama.

Desviar-se de mil cinzeiros, evitando pisar nos fantasmas da noite passada que, materializados em forma de cinza e bitucas de cigarros amontoadas, sorriem tristemente.

Olhar ao redor.

 

(Os olhos, tateando em falso na neblina feita de móveis de madeira, não são sinceros. Saltam seletivamente, conspiram, escolhem realidades, tingem com cores quase alegres a quase morte estampada ali.)

 

Arrastar-se até o corredor.

D

i

s

s

o

l

v

e

r

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s

e

em espirais de negligência.

 

...

 

Sabrina Henrique Bettiol