NA CALÇADA DO CARDEAL

Há uma cidade maravilhosa ao fim da tarde
Agora que os dias crescem de luz e nevoeiro
Lisboa

E há em Lisboa uma rua uma calçada
Como quem desce da Graça em direcção a Santa Apolónia
A Calçada do Cardeal
E há nessa calçada uma pequena tasca
Deserta a horas mortas que são as minhas horas
E tu que nunca mais chegas
E as minhas horas mortas
E o meu peito cheio de vida esperando a tua vida

Não desci a Santa Apolónia
Para te ver sair de um comboio
Pois chegaste ate mim mas não foi por terra

Não desci ao Tejo
Para te ver sair de um navio
Pois chegaste ate mim mas não foi por mar

Chegaste é tudo

Chegaste no primeiro dia de um mês novo
De um ano novo de uma vida nova
Que seria sempre um dia novo de um mês novo
De um ano novo por me trazer vida nova
Chegaste como quem sempre esteve

E reconheço a pequena tasca da Calçada do Cardeal
Em frente a tua casa
Como um espaço mágico de um tempo mágico
Em que estás sem ter chegado
Em que chegas sem te ausentares

Há uma doença benigna na minha memória sempre que estás
( E estás mesmo antes de chegar )

E cada minuto de abraçar o teu ar
Cada minuto de respirar o teu braço
E cada minuto de pressentir o teu corpo
Cada minuto de possuir o teu espírito

Esqueço dias de meses anteriores
De anos anteriores de vidas anteriores
Das minhas e das tuas
Horas vidas recantos lugares memórias

Esqueço a vida os tempos e os espaços

Cada minuto da tua presença
Faz-me esquecer um dia da tua ausência

Em breve não saberei quem sou
Só tu existes

Nessa calçada
Nessa cidade
Neste homem

Lisboa, Fevereiro 2002



AS FLORES E OS FRUTOS DAS LARANJEIRAS

As flores das laranjeiras
São vistosas no chão do pátio
Mas são mortas

Faltam às flores
A alegria das crianças
A sorte dos jogadores
A vida dos animais selvagens

Heróicas as flores das laranjeiras
Que com um vento morrem
Em nome do fruto

Frutos ainda verdes
Do tamanho dos teus olhos oscilantes

Frutos em breve esferas de uma carícia
Na palma da minha mão

Frutos em breve esferas
Suspensas no pêndulo do teu peito

Tens-me como um corpo suspenso
De um eixo horizontal fixo
Que não passa pelo teu centro de gravidade

Tens-me oscilando livremente
Quando afastado da posição de equilíbrio
Que encontro a teu lado

Os frutos das flores das laranjeiras
São vistosos na cor
Mas imperfeitos na forma

Faltam aos frutos os recantos
Das tuas formas das tuas axilas das tuas mãos
Do teu pescoço do teu joelho do teu baixo-ventre

Heróicos os frutos das flores das laranjeiras
Que com uma dentada
Morrem em meu nome

Frutos que ao morrer
Matam a fome do meu ventre
Matam a minha sede dos teus sabores

Frutos que ao meu olhar
São os teus olhos
Vertendo sumo acre ocre água doce

Frutos que às minhas mãos
São as tuas mãos

Oscilando entre sorrir e chorar
Oscilando entre partir e ficar
Oscilando entre existir e sonhar
Oscilando entre sentir e amar

Évora, 1999



FIOS DE COBRE

A necessidade de alcançar os fios de cobre
Com que te cobres
Sabendo ficar de fora o sorriso
Com que te tornas
Cada vez mais dentro da minha roupa
Com que te aqueces
Cantando a melodia de me alcançar
Com que te distrais.
Cada vez mais estou dentro da tua roupa
Com que te despes

Sorrindo deslizas a cabeça para trás
E alcanço os fios de cobre com que te cobres


Évora, 1998


Paulo Bernardino Ribeiro é poeta português.