TODOS OS TEUS MORTOS

Vem,
vem enterrar teus mortos.

Calça luvas bem limpas,
veste a roupa mais bonita,
reza um pouco. E chora. E vem
que os teus mortos já te esperam.

Vem,
vem e vê:
aqui está tua mãe,
lembra como te ninava?
Ali, jaz o teu pai,
sério ainda, empertigado...
aqui,
os teus amigos:
um partiu antes do tempo,
outro fez-se bom doutor,
o outro nunca se encontrou...
a amizade tem seus tons.
E teus mestres,
e teus bichos,
teus amores...
todos quietos,
todos cálidos,
todos silentes:
todos à tua espera.

Os mortos são teus. Tu, que os tiveste quando eram vivos,
e que um dia os beijaste,
e os quiseste,
e os amaste...
não os amas mais?

São esses teus mortos:
só teus
(porque há outros mortos no mundo,
mas estes, não conhecerás).

Eis a pá,
eis as urnas,
eis a terra.

Dentro em pouco, sairás,
deixando um jardim de lápides:
delas, um dia esquecerás.

Mas guarda este mar de lembranças,
pois nele se fez tua História.
Sem esses mortos, amigo,
nunca terias vivido.


DANÇA, MARIA

Dança, Maria, que é tarde;
dança, que a lua te chama.

Dança, Maria, que os homens
não querem ver-te esta noite:
ébrios, jogados nos leitos,
vivem para outras mulheres --
como eles sempre viveram...

Dança, Maria! Quem sabe
não aparece um galante --
mão enlaçando a cintura,
braço roçando no seio --
que, com coragem sem par,
venha levar-te pra longe?

Dança, Maria. Volteia,
roda o surrado vestido,
sopra uma valsa entre os lábios.

Dança, que o tempo anda lento.
Dança, que o corpo assim quer.
Dança, que as danças são belas.

Dança. Não ouça estes roucos
risos por trás das janelas.


OS DIAS

Guarda esta faca em teu peito:
entre os papéis amassados,
entre os amores perdidos,
entre os mistérios passados.

Guarda esta faca, que o tempo
há de esmagar os horrores
que, ingentes, tanto te afligem...
és só mais um. Destas dores

outros fizeram efígies
e ergueram torres, palácios
vastos, cobertos de sol!
Com teus fragílimos braços,

nem um sepulcro farias!
Por isso, guarda esta faca:
vá retomar a contagem
dos teus tão sólitos dias.

Henrique Marques Samyn, poeta e ensaísta, vive no Rio de Janeiro.