Conversa às 3h30 da madrugada

às 3h30 da madrugada
uma porta se abre
e há passos na entrada
movendo um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e responde.

com os diabos, ela diz,
você não dorme nunca?

e ela entra
com rolos no cabelo
e num robe de seda
estampado de coelhos e passarinhos

e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos;
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.

você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e de canções românticas,
e depois de alguns copos
ela não se preocupa em cobrir
as pernas
com a beira do robe
que está sempre caindo.

não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolos,

e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.

e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.

 

Tradução de Roberto Schmitt-Prym

Charles Bukowski nasceu na Alemanha, filho de um soldado americano, ainda criança foi para os EUA. Teve problemas com alcoolismo e, apesar de ter realizado estudos superiores em literatura e jornalismo, trabalhou como frentista, ascensorista e motorista de caminhão. Começou a escrever poesias aos 15 anos, em 1935, mas seu primeiro livro saiu apenas 20 anos depois. Em 1962, estreou na prosa, caracterizada pela mistura de vida pessoal na literatura. Apenas em 1970 Bukowski deixou seu último emprego "comum", o de funcionário do correio, para se dedicar exclusivamente à escrita. Moreu em 1994 aos 73 anos.