(frag.) TALVEZ AS HARPIAS

“...meus pés sonham suspensos no abismo...”
(Roberto Piva)

O milagre da vida
É corrompido
A todo o momento
Pelo sangue,
Pelo Eros.
E eu até o
Cerne de
Minha medula
Sou fruto
Deste corrompimento.
E tão decaído de rancor e mágoa
Pulo do abismo.
A cidade está distante
E suas enegrecida chaminés
De onde tiro lascas com as pontas dos pés.
Carrego como pedras minha alma a cada dia
A tempestade me faz flutuar sobre o abismo
Sou o abismo e suas pedras pontudas do fundo.
Só tenho a queda
E minhas asas de penas negras, a segurar-me
Às vezes só as abro quase no fim.
Por que? Pergunto-me
Por que as abro?
Sou o rasgo da tempestade
E levito
Sobre as pedras pontudas que sou eu mesmo.
O sentido do fim é meu êxtase.
Flutuo
Bato as asas e
Inicio mais um looping.
Sou o espelho do mar tempestuoso
Azul-cinza.
Nasci no mar, mesmo sendo pássaro
Era tempestade aquela manhã
E todas as manhãs seguintes ao meu nascimento também o foram.
Nos mergulhos no ar, sigo pegadas bem perto do charco.
Vivo na ilha da tempestade eterna
E raios me cruzam.


Bato minhas asas para longe dos vales das sombras
Só os mais tristes e poderosos poetas o cantam
E eu, sou meu corpo de homem – nenhuma poesia – e minhas asas.
O tapete de flores do chão,
Ao qual um dia joguei
Incendeia-se.
Dou um rasante sobre o fogo.
Para onde vou?
Para a cidade das altas chaminés.
Numa tarde quente e cinzenta
A vi pela primeira vez, acho que era o que chamam de dezembro.
Seus olhos morenos me devastaram como o mais cruel dos oceanos.
Quem será ela?
Que observo de cima das chaminés
Com o seu passo rápido, com seu sorriso que exala luz.
Com nossa total incomunicabilidade, distancias cósmicas me percorrem
Penso, no mergulho, tocar as ondas escuras de seus cabelos,
Fracasso.
Sempre um fracasso tenho
Como uma coleção de relicários
E os meus,
São cravados de flechas.

Silvio Barros (1966) é carioca. Poeta e Operador Estético (Projeta Objetos e Instalações), Lançou Poema Crime/ 7 letras 1999 e prepara a primeira coleção de seus Objetos de grande dimensão em aço, chamada Esboços de uma nova fala . Atualmente vive em Desterro.