Impermanência
Que as margens
reimprimam ao contorno
o acumulado
restos de um tal rio
deserdado de si, que
mesmo por fluir, deixa
o leito escasso, quase estranho
ainda que role
o limo desfolhado
posto à deriva
de um ponto cego onde
o vazio reencontra o seu curso
impermanente
Algo que se adere
bordeja nas franjas
infenso aos golpes
permanece
assim na superfície
ou apenas transparece
um vago alento, o que no fundo
recupera
ramagens esgarçadas
seixos intocados
ao negar nestes domínios o mesmo
que o corpo
tão afoito
na certeza de afogar-se
expõe a um só tempo
ainda agora, em outro extremo
em vão tenta diluir
a beleza irresoluta
que súbito
submerge

Sílvia Rubião mora em Belo Horizonte, onde nasceu em
setembro de 1952. Graduada em Comunicação Social,
trabalha como consultora na área de Comunicação e
desenvolve projetos editoriais. É editora da coleção BH.
A cidade de cada um, que apresenta, em pequenos livros
de diversos autores, os bairros e lugares marcantes de
Belo Horizonte. Em agosto de 2005 estreou na poesia, com
o livro Tangências, editado pela 7 Letras.