A Tolstoi

Tolstoi em seu leito de morte:
um velho magro, de ossada forte.

Diziam que era feio. Não acho.
Tinha uma beleza áspera de bicho macho.

O rosto parece, ao mesmo tempo,
consciente do fora, olhando pra dentro.

Parece também, lado a lado,
bem cansado e muito descansado.

A grande mão, a que escreveu
os mistérios da vida, o meu e o teu,

está toscamente pousada no peito,
branca, em destaque contra o preto

da camisa camponesa cristã,
de um cristo vero e puro, sem religião.

O homem que se colocou, ágil,
dentro do coração de uma mulher frágil,

é um cadáver simples, mas nos traz
a morte como, após uma guerra, a paz.

Marco Polo Guimarães nasceu no Recife. É jornalista, poeta e compositor. Participou de diversas antologias, com destaque para a Antologia da Nova Poesia Brasileira, organizada por Olga Savary (Editora Hipocampo, Rio de Janeiro, 1992) e Poésie du Brésil, organizada por Lourdes Sarmento (Vericuetos, Paris, 1997). Também cantor e compositor, gravou o disco Ave Sangria e participou das coletâneas Asas da América - Frevo I e II. Tem músicas gravadas por Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Teça Calazans e Zezé Motta, entre outros. Atualmente é editor da revista Continente Multicultural. Publicou os livros: Vôo Subterrâneo (poesia, Edições Bagaço, Recife 1986), Narrativas (contos, Edições Luz da Cidade, Recife, 1992), Memorial (memórias, Edições Bagaço, Recife, 1996), Brilho (poesia, Editora Comunicart, Recife, 1996), Palavra Clara (poesia, Edições Bagaço, Recife, 1998), A Superfície do Silêncio (poesia, Edições Bagaço, Recife, 2002) e Caligrafias (poesia, Edições Bagaço, Recife, 2003).