3:5

Quanto mais civilização mais fadas são enterradas.

As fadas são gestos de benevolência.
A benevolência é uma pedra rara.

Um milagre pode ser uma sobrevivência de fadas;
Um novo pulso para veias até agora ralas de sangue
Ou uma palavra parando uma turba numa avenida
Se a palavra for um gesto de rosas
Que rosas dançam e musicam desenhando rodasRodas coloridas e para cada roda uma artéria
Sem conduta nem regularidade — jamais retas.

Pode ser uma favela azul
Ou um octogenário verde
Ou uma megalópole amarela
Ou uma gravidez vermelha;
Pode ser mais cores

 E cores consubstanciadas;

Cores transparentes e pastéis e escuras e claras
 E mais cores em faixas

Que ali o trânsito
Por ironia

Opera milagre.

Isso não é um salmo
Mas um demiurgo poderia cantá-lo.

O que pode ser ou o que poderia ter sido não importa
Se em nossa horta os santos e os poetas chovem
Sua intuição de rosas
Derruindo armazéns de gente e casas e crateras
Pelo fim dos palácios.

4:1

O armazém de gente é um cavalo de guerra

Não serve para presente e desola
Todos os corações cheios de afeto e a luz
Porventura anunciando aurora às gentes;
E é de madeira desde os cascos
Por isso frio.
Cavalo cujo hálito de horror cavalga
Campina a campina distribuindo nojo e medo
Em nome das horas absurdas
E em linha reta entre os vértices das casas.
Cavalo para defloração de almas
Embora não creia em almas para glória;
De olhos em absoluto e cheios de nada
Porta a porta entre quartos e salas
Ou na intimidade do banheiro e do travesseiro.
Mora no armazém de gente todo tipo de gente
Todas movidas para discórdia. 

5:5

Essa mulher com uma metáfora no ventre:
Choro e marcha e vestido e calças;
Leveza e cicatriz nos olhos:
Mulher como sempre própria para vestígio e monumento.

Queria e conseguia bandeira abrindo alas
Quando bandeiras atravancavam;
E fotografias e o nome sem predicados de macho:
Era uma mulher falada.

Aí não era de graça e danava a circular modinhas;
Adormecia com os lábios mádidos
Desacostumada de cegueira e mudez
E testemunha de um futuro para todos os lados.

Se alimentava de verde e tinha uma fome de água;
Era uma mulher azul
Com litígio no bailado dos dedos
E uma batuta própria para batucada.

Aconteceu de morrer e de a metáfora nascer
E esta suor e multiplicidade
E máquina e mãe
Tálamo da alma, sozinha e acompanhada.

Epílogo

Nascem memórias de páginas de livros;

O mercado vende seu prestígio
E pétalas não marcam mais os capítulos.

Emergem conspirações numa casa de governar;
Alguma sorte dá ocaso ao infortúnio
E um remanescente publica um livro.

Fulano vinte e cinco mata cicrano cinco em seu armazém de gente;
Descobrira que um adultério custava em seu bolso um filho
E a mídia exibe o corpo do menino.

Uma nação se forma de matanças;
Cicatrizada conta sua história nas escolas
E teses a hesitam formulando crises.

Crescem caroços nos organismos políticos;
As cidades os monumentalizam em bustos
E os verdes hasteiam bandeiras.

Moramos nisso para glória
Como laivas de luz no escuro
Usando armas contra o que se julga mazela.

Zanzamos de óculos quebrados e sem conserto
Habituados somente ao sono
Nascido nas ruas em nome do povo.

As memórias pelo comércio registram tudo;
Ninguém diz nada senão pela ordem
E quem se desacostuma é exilado no absurdo.




JAMESSON BUARQUE
é poeta e mestre em Estudos literários pela UFG – Universidade Federal de Goiás –, com a dissertação Canto dos deuses: leitura de poesia épica contemporânea do Brasil.. É autor de Novíssimo testamento (UFG, 2004)