Da amizade, como todo os bons pensadores

A graça do fogo se perde na fumaça.
Ou a fumaça é um fogo impotente.
Talvez seja peçonhento que te acusem mais do que você merece, garota.
A amizade é um escorpião programado com açúcar.
Eu, que tenho uma arma de plástico roxa,
do tamanho que comove
as baratas,
e toda a maldade de uma gorda generosa,
Mataram os peixes da gorda generosa.
deito pelada na cozinha, para que os insetos se cansem.
Como crianças debochando do monstro que as leva para passear.



estio ainda

a mortalha sente fome e engole uma perna da mesa.
a sombra é o cepo onde entrego minhas coxas.
não andarei ao pó, não cuspirei sal pra ver barro.
prefiro amarrar junto os dedões e dar osso e sopa ao vermeiro triste
desse caminho.

esse caminho teve um dia um coração
que viera caber numa janela mexeriqueira
(e lá vai meu coro de caveira chifrada, e passa osso e passa carniça e passa urubu olhando minha preguiça)
esse caminho teve um dia uma valsa
que dançou molegoza de ventre e chinela.
(e lá vai meu coro de caveira chifrada, e passo olho na desgraça e passa criança fantasma chorando farinha)
esse caminho nem sempre foi traição
já houve gente com lida boa de enxada.
(e lá vai meu coro de caveira chifrada, e passo raso na pedra farelo e passa a vida pelo espinho da agulha quebrada)

pastos

bovinos paralelos bebem água;
bovinos sobrepostos dão rebanhos;
vacas contém casulos terneiros;
rente ao chão, são bois magoados;
presos, bois tem ângulos limitados.
vacas advertem novilhas;
opostos, somente os touros;
perpendicular ao bovino,
é a carne.
o pasto alimenta-se de bovinos
através da verdura.



Francieli Spohr ou Fran ou Phrann ou Lia tem 26 anos e é só uma barqueira; não gosta de poesia mas não consegue se livrar dela, prefere ler terror e é ali que pretende poetizar.
Quis morar na Irlanda, então foi pra Santa Clara do Sul. Agora não está mais lá e ainda não sabe onde estará no ano que vem. Para se manter limpa usa grilhões e para ser boa, às vezes mata. Nada que não pareça digno de um pirralho. Sua maior ambição é vender livros com histórias que façam as pessoas amarem as escadas, as casas, as esquinas e tudo aquilo que margeie o absurdo. O primeiro inclassificável foi publicado há oito anos atrás, se chama "Enfermas linhas de fuga" e como bom monstrinho acabou escondido no porão, donde ainda julga vivos e mortos. O segundo é filho morto, o blog www.sapatodealice.blogger.com.br, foi sacrificado pela falta de pernas. "Por enquanto se chama cataclisma" é o livro que está na gaveta. Logo logo estará lançando junto com Nôno, outro ser instável, o jornal+fanzine+circular+cordel de instantes alheios, Diminuto Carne. Um romance vem vindo, aos poucos, para quando não tiver mais esperança, com amor e ruindade. francielispohr@ig.com.br e diminutocarne@yahoo.com.br