FERA

para Horácio Costa

Fera bifronte.
Insulta-nos, a insaciada,
antes de castrar nossos olhos.
Exala sopro de serpe;
salmodia gritos de gralhas.
Ela, a escamosa.
Ela, a obsediada.
Avança a língua negra de onagro,
que mutila ao lamber
nossos lábios.
Devassa da noite e seu dramatismo,
da noite e seus jogos
marsupiais,
faz do breu uma erótica de lâminas.
Cega cadela, mastiga meniscos,
omoplatas, parietais:
peões de um jazigo-
tabuleiro,
agora pasto de compêndios
metafísicos.
Florentina, exibe seus múltiplos ornatos,
ao devorar a carne
dessangrada:
pingente de ouro numa teta,
argola de prata
no lábio cinzento
de harpia.
Ela, que não é prima-donna.
Ela, que não é movie star.
Sinto sua presença, ela me espreita na sombra
de uma esquina
com sua capa cerimonial,
sua guadanha,
ávida por envolver-me
em lascívia;
mas eu me esquivo
da canina,
belicosa,
bicéfala dama-dragão.
Seguirei disfarçado
de beduíno, tuaregue,
nômade africano.
Se ela vier buscar-me
neste poema,
não encontrará
a carne tensa, palatável,
apenas a efígie
de um perpétuo
fugitivo.


2005



Claudio Daniel, poeta, tradutor e ensaísta, publicou, entre outros títulos, A Sombra do Leopardo (poesia, 2001), Romanceiro de Dona Virgo (contos, 2004), Jardim de Camaleões, a Poesia Neobarroca na América Latina (2004) e Figuras Metálicas (poesia, 2005). É editor de Zunái, Revista de Poesia e Debates (www.zunai.com.br)