Depuração

1

É numa zona
de segredos

que me lanças –

carne em fogo
plicas loucas

pontas-secas
que serpeiam

e se arrastam
para dentro

do desenho
do desenho de

um desenho

2

Ver a cor do
que não morre

na janela, o
dia ardendo

seus indícios –
pouco importa

se, num gesto
inconseqüente

que não digo
tua imagem se

converte em
meu perigo


3

Estar morto
na decifra o

que me resta
: tecer calmo

além do braço:
a alma em concha –

um novo braço
destacável, ao

léu reposto –
enredado na

blandícia de
um segundo

4

Na brandura
dessa noite em

que te sinto –

se, esticado
não te toco

intrometido
no sem-com

de teu mistério
justo orbito –

míssil cego
sem destino


5

Mesmo assim
eu te depuro

e beberico
toda a água

que me ofertas
pela rama –

a cada vez
que me apeteço

avanço e torno –
e te penetro

num vaivém
de gozo limpo

6

És de algo

o longe –

alguém que
dorme

bem debaixo
do infinito –

infinita bizarria
esse exercício

de um silêncio
quase teso

após o grito

Jorge Lucio de Campos (Rio de Janeiro, 1958) é poeta, ensaísta e professor universitário (ESDI/UERJ). Publicou, álém dos ensaios Do simbólico ao virtual (1991) e A vertigem da maneira (2002), as coletâneas Arcangelo (1991), Speculum (1993), Belveder (1994), A dor da linguagem (1996) e À maneira negra (1997).