PAISAGEM
A Valter de Almeida

Uma paisagem tão perfeita quanto
Uma árvore de tronco octogonal.
Inclui uma montanha tão perfeita quanto
Um ziggurat, ou o tronco da pirâmide
De Sakkhara.

E, vaya, à distância um mar
Que Bergman nenhum nunca viu.
E nem Tarkovsky, e sequer Woody Allen,
Para compor os seus filmes
Sobre problemas de relacionamento entre seres
Metropolitanos.

Estende-se para tais planos
Um rendilhado dificilmente ortogonal
De ruas e luzes de tungstênio
Visto desde este 22º andar,
Depois do rio de águas calmas,
Um rio morto,
Que talvez algum Caronte caboclo atravesse
Todas as madrugadas
E em silêncio.

Leva para a margem de lá
Os corpos dos amores mortos,
Para a margem de lá,
Ao pé da montanha como um ziggurat;
Leva, por fim vendados, as figuras
Dos ardentes carinhos mortos.

E, quando retorna
Já é sempre um por de sol
Como um desses,
Que nenhum pintor nórdico
Viu nem pintou, nem Munch nem
Friedrich, nem Maliévitch.

Não há muito mais a dizer
Sobre esta paisagem.
Que é a de hoje,
E que morra com este
-Sim, lindo!- pôr de sol.

Horácio Costa, poeta, tradutor e ensaísta, nasceu em São Paulo (SP), em 1954. Publicou, entre outros livros, 28 Poemas / 6 contos (1981), Satori (1989), O Livro dos Fracta (1990), The Very Short Stories (1991), O Menino e o Travesseiro (1998) e Quadragésimo (1999).