HANS STADEN, O POEMA
''O litoral entre o Rio e Santos ainda propões trópicos de
sonho.''
Lévi-Strauss
A curva do Rio Una
desemboca em ondas muídas num Montão de Trigo
a sereia surfa tatuada com uma cabeça de porco
sem nenhum engano grafando peixes
mórfico-lexemas
fonântica mania de pensar pela língua
feito touro sentado
a praia é Baleia Preta retinindo a pedra com seios fartos de sinos
a ilha bolo
come-se de beleza
círculo fértil faz arquipélagos dum fogo brando
farta-se bronzeado alma alumiando
ilha bola curvilínea
ilha bote encantando naufrágios pelo casco escorregantes
no fundo Oceano é uma coroa
dourado galeão repousando futuros pássaros castelhanos.
ESTILEMA
amor: procurado, perigoso
nada, nada, nada que um gozo não trace
o sorriso de Deus não vale mais que tua boca recendendo alfajos em
compotas, maciez dum pêssego tenro fosco naco dum caroço
tinha razão destarte:
desdenhei ser entregue no teu laço de sexta-feira agora
ontem será nunca
era cedo impreciso arrependimento
deixo-te nessa margem onde
STEVENSON aqui.

Flávio Viegas Amoreira é
poeta e contista, nasceu em Santos em 1965; historiador e agitador
cultural no Litoral Paulista, faz parte da ''Geração 00'', grupo de
novos valores da Literatura Brasileira conforme codificação do
crítico Nelson de Oliveira. Já lançou '' Maralto'' (poemas-2002),
''A Biblioteca Submergida'' (2003-poemas) e ''Contogramas''
(contos-2004), todos pela Editora 7 Letras. Lançará, em agosto de
2005, ''Escorbuto, Cantos da Costa'' (poemas), pelo mesmo selo
editorial. Escritor ligado ao estudo da linguagem e semiótica, é
parceiro intelectual do compositor Gilberto Mendes. Fundador do
Fórum Santos Cultural, é tradutor de obras de E. M. Forster e de
Richard Burton . Prepara um romance, ''Edoardo'', ser lançado em
2006. O autor já foi adotado como escritor-correspondente pelas
cátedras da New Mexico University e Georgetown University nos EUA.