FABULA MARINHA
O peixe que se
quer
solúvel
tem de ser em verdade
de cristal
porque nele
o reino da compenetração
justifica
os músculos
do líquido avanço
seus olhos
brilham mais
que fogos
põem velocidade
no correr
do corpo
até os planctons
sabem
que o peixe esguio
carrega por dentro
a máquina
dos elementos
assim o peixe
realiza
uma centelha
(convicta)
escondida nos pulmões
que o acompanham
solúvel:
entregue aos caprichos da água
digamos.
Excursiona em círculos
ao bordo fundo
percebe as cores
— num átimo
gira
zarpa
em outra direção
zigue
zague
tonto
translúcido.
Só quando a mão curiosa
chapina
com interesse e rigor
na água
o peixe solúvel
aparece
em cristal
levado por invisíveis
barbatanas.

Fernando Paixão nasceu em
1955 na pequena aldeia portuguesa de Beselga, vindo a transferir-se
no início de 1961 para o Brasil. Formou-se em jornalismo pela USP,
iniciou e interrompeu o curso de filosofia, e defendeu tese na
UNICAMP com estudo sobre a poesia do poeta português Mário de
Sá-Carneiro. Sua produção literária começou com o livro "Rosa dos
Tempos", de 1980, seguido de "O que é poesia", dentro da coleção
Primeiros Passos, dois anos após. O autor, no entanto, renega hoje
estes dois primeiros livros, por considerá-los "adolescentes", sem o
apuro necessário. Em 1989, retornou com o lançamento de "Fogo dos
rios" ( Editora Brasiliense), seguido de "25 Azulejos" (Editora
Iluminuras, 1994). Publicou também poemas para crianças nos livros
"Poesia a gente inventa"(Editora Ática, 1996) e "Dia brinquedo"
(Editora Ática, 2003), ambos premiados pela Fundação do Livro
Infanto Juvenil (FNLIJ). Costuma escrever artigos para jornais e
revistas, sempre tratando de literatura ou temas afins.
Profissionalmente, há mais de 20 anos vem atuando na área editorial;
é responsável pelo setor de livros não-didáticos da Editora Ática.
Em 2005, foi convidado pela na Univesidade de Berkeley (Califórnia,
USA) na qualidade de visiting writer.