Poema do livro O MESTRESSALA (Inédito)
XXI
a história dos antílopes
tem sido contada pelo sangue
nas ravinas
engana-se quem se orienta por este selo
e outras missivas
se esse alguém
intuísse que são medusas as plantas
talvez amasse menos
o desastre alheio
a história dos antílopes
não deve ser creditada aos herdeiros
do colecionador
nem ao vento
nem à esposa nem ao homem
que ateia fogo
quando o antílope invernou
não é que abandonasse
seus arcos
talvez fosse estratégia,
nunca se gastaram por isso?
e a vida que nos cabe rompesse
a armadura
dentre os primeiros
a não rechaçar o antílope
ardeu
o que vai chegar de viagem
“minha bolsa de estudante
estrangeiro
percebe as gralhas
furtando a tranqüilidade
antes que nos identifiquemos
rasgam nossos livros – e o que pode
um antílope
sem suas anotações?
apostamos séculos na palavra
mas na cidade-ringue
não evitam o nocaute”
um fusca estraçalha
o domingo
os suicidas desembarcam para dar geografia
aos lugares
na pastelaria sobrenatural
ou no bar do cabelo
pouco importa – aí se preparam
os nervos
de quem se apresenta
às organizações naja
– que linguagem assaltaremos?
na pergunta sobre a ação
a ação se desenrola
os antílopes
não morrem – o que vai chegar de viagem tatuou
em si
os trabalhadores engolidos
pela mina
os lenços que as mães
passaram do cetim ao protesto
porque um
invernou não quer dizer
que deixou de abrir o clube
nem que esqueceu
a agulha
emperrada no disco
os antílopes
correm na equipe de revezamento
e o mais velho
o que dançou no elite
estira o amor
num quarto de vogais
“olho a vitrine e sei que a onda
de calor
faria menor estrago
no deserto
aqui, entre os artigos de festa
traiu
o corpo da balarina
como se não pudéssemos
dançar
além do toque de recolher”
a história dos antílopes
se atreve num cadáver
na blusa removida
sua origem corta
a sola, vai ao cinema
salda uma dívida
o antílope
vira a mesa de bilhar
de tudo salva o rádio
com que distorce os ouvidos

Edimilson de
Almeida Pereira
nasceu em
Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1963. É professor de Literaturas
Brasileira e Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora.
Ensaísta, publicou em co-autoria Negras raízes mineiras: os Arturos
(2. ed. 2000), Assim se benze em
Minas Gerais: notas sobre a cura através da palavra (2. ed.
2004), Arturos: olhos do rosário (1990), Mundo encaixado:
significação da cultura popular (1992), Do presépio à balança:
representações sociais da vida religiosa (1995), Ardis da imagem:
exclusão étnica e violência nos discursos da cultura brasileira
(2001), Flor do não esquecimento: cultura popular e processos de
transformação (2002), Ouro Preto da Palavra: narrativas de
preceito do Congado em Minas Gerais (2003). Publicou em 2005,
individualmente, o livro Os tambores estão frios: herança cultural e
sincretismo religioso no ritual de Candombe. Sua obra poética foi
editada em quatro volumes: Zeosório blues (2002), Lugares ares
(2003), Casa da palavra (2003) e As coisas arcas (2003).
Em literatura infanto-juvenil editou Cada bicho um seu canto
(1998, poesia), O menino de caracóis na cabeça (2001, prosa),
O primeiro menino (2003, poesia), Os reizinhos de Congo
(2004, prosa), Histórias trazidas por um cavalo marinho (no
prelo, 2005).