CAIXA CORAL
Adiei o mundo que no escuro
preparava o bote - coral na caixa
preta do destino
Sem descobrir
o código - cobertor de ruído
sobre o túnel -
acordei diante do trem
em direção ao corpo
preso na ferrugem
Nenhum desvio
salvou-me do som
despedaçado do violino
Adeus dos outros,
feito pão mofado
na mesa posta de um cortiço
Acolheu-me a musa
no lado oposto à vida
com o olhar mortiço
para quem ficou encarando
a minha sorte
Ela escolhe e fisga o coração
de quem não morre
Para o resto - o inconformismo
em mar de inveja repulsivo -
ela tem o olhar que petrifica
Fósseis na mira da Medusa
fogem do Tempo, rosto final
do Medo, que assoma
como surda carruagem
Enquanto somem, a seiva
interminável cobre o sonho
que guardei no bolso
Carne oferecida à eternidade
É BOM O MAR
É bom o mar
não ter dono
Não ser potro
nem mordomo
Poder engolir
Netuno
Espumar sal
das esferas
Ninguém pasta
no seu dorso
Nenhum nó
ata sua vela
Gávea que traz
no bojo
Bóia que a flor
navega
Como repasto
de pedra
Como fermento
de estrela
São peixes
fora do espelho
São aves
em assembléia
O bom do mar
é que dançam
numa volúpia
serena
os versos feitos
por anjos
que estudam
com muito esmero
o mar, esse Deus
travesso
que se bobear
pega praia

Nei Duclós
é autor dos livros de poemas "Outubro' (A Nação/IEL-RS, 1975), "No
Meio da Rua" (L&PM,1980) e "No Mar, Veremos" (Globo,2001) e do
romance "Universo baldio" (Editora Francis, 2004). Jornalista desde
1970, atuou nas equipes de Mino Carta, Tarso de Castro, Múcio Borges
da Fonseca, Woile Guimarães, Nestor Fedrizzi e Walter Galvani. Suas
obras foram apresentadas por Mario Quintana, Mario Chamie, Raduan
Nassar, Juarez Fonseca e Claudio Levitan.