Domingo de clube

Para não mentir volto ao domingo
De clube, cedo e tudo
Em frasqueira de mãe.
Frasqueiras hoje acendem risos mas
Palavras apagavam e acendiam mesmo
E o que estava fora não estava
(Adiante do caminho o rio enorme
Ou asfalto e lá sim os acidentes).
Leva-se uma vida pra sair
Fazer passado em um outro bairro.
A vida, afinal, queima no ar
E é uma transferência de fumaças.
Mas tem fatos casar com a Fernanda
Fazer finais com suas iniciais.
E tem a metafísica do fumo,
Segunda, terça, quarta ou mesmo sábado,
Palavras como tílias buganvílias
Impressionadas de seu próprio estilo.

Mas para não mentir volto ao domingo.



Conversa de menino

O silêncio era infinito
mas acabou
perguntando ao menino:
- O que fazes nesta manhã?

Ele agarrou no que não tinha:
- Reinvento a minha mãe.

Celso Gutfreind nasceu em Porto Alegre em 1963. Tem 17 livros publicados entre poemas, infantis e ensaios. Além de escritor, é médico, pós-doutor em psiquiatria da infância e da adolescência pela Universidade Paris 6 e professor de psiquiatra na Universidade Luterana do Brasil e Fundação Universitária Mário Martins