A caverna
De tão intensa, a luz de tua
fogueira não pode ficar somente
em tua caverna, amarelo demais,
que num pequeno espaço, cega
Ela pede para ser levada,
à floresta onde os homens
e as mulheres acordam com
o sol tapado pela folhagem
O teu archote é para o mundo,
para alguns olhos abertos, que
tocados pela chama possam
renovar nas suas retinas o céu
Não há outro jeito, é preciso
passar de mão em mão esta
tocha - atleta sem corpo -
para que o homem-réptil suba
do mar para as estrelas -
E veja, delas para a terra,
que o facho de luz doada
enche de escuro a caverna
A morte desmonta relógios. A cada dia, a cada hora, mundo afora, por
onde
passa.
Relógios-pássaros atravessados por dardos-ponteiros - certeiros - em
pleno
vôo. Relógios-leões com vastos minutos de juba, nuvens-relógios que
brisam
um só segundo
A morte não perde tempo, desmonta relógios em toda parte,
desaprisionando o
tempo, que ensaia para eternidade. A morte leva às costas um saco
cheio de
minúsculos relógios infinitamente desmantelados, e suas miríades de
fragmentos, caídos pela chuva e pelo vento dos caminhos germinam
caules de
efêmero, galhos-ponteiros, onde pendem novas horas, algarismos,
frutos-pêndulos
Árvores carregadas de relógios a espera que ela, num segundo, dê a
volta ao
mundo, passe e os colha novamente. Relógios em forma de paixão,
relógios-corações achados por acaso no chão de um incêndio,
delatados por
seu crepitar tic-tac, relógios de fogo
que a morte carrega e atira ao rio, às águas que apagam a memória em
chamas
A morte não usa relógio, a morte não tem horário, mas - poder,
vaidade - as
vezes, nas grandes cidades, põe uma bomba-relógio no pulso e sai a
passear
nas ruas, de trem, nos edifícios
Mas também às vezes parece desmontar relógios inocentemente: uma
criança,
desmontando o seu brinquedo. A morte é lúdica em seus afazeres.
Trabalha ao
ar livre. A morte gosta do que faz e o faz bem feito. A morte também
não tem
hora para voltar, principalmente quando sai à noite para desmontar
relógios
boêmios.
Os métodos da morte são infindáveis, infinitos, há relógios que ela
quebra a
marteladas, outros que congela só com o olhar.
A oficina da morte não tem endereço. Ou Rua do Grande Segredo, sem
número?
A música de Eros
Eros ensina o leão a cantar para a morte.
Adorna, com pedras falsas e brilhantes,
A coroa, o diadema de escuridão que sobre
doura e pesa a cabeça soberana - Planta
no coração da fera o fogo sonoro da fonte
criadora de miríades de seres e estrelas.
À sua silenciosa lição de música
o monstro de ciência uiva, e, já
inconsciente, entrega a sua mão
à mão de uma criança cega - Ego
demolido e conduzido ao som da flauta
que transforma em canto encantador
o sibilo sempre predador da floresta.
Festa e caos dos sentidos - Rei-bobo
da corte dançando ao luar da clareira
conforme a suprema sonoridade do abismo

Antônio Moura nasceu em
Belém do Pará, em 16 de janeiro 1963. Tem quatro livros publicados:
Dez (Super Cores - Belém, 1996); Hong Kong & outros poemas (Ateliê
Editorial - São Paulo, 1999); Rio Silêncio Lumme Editor - São Paulo,
2004) e Quase-sonhos (tradução de Presque-songes, de Jean-Joseph
Rabearivelo - Lumme Editor - São Paulo, 2004). Seus trabalhos também
têm sido publicados em diversas revistas brasileiras, como Cult e
Suplemento Literário de Minas Gerais, Sibila e em antologias
nacionais e internacionais como Na virada do século - poesia de
invenção no Brasil, Construções Portuárias (Portugal), Serta
(Espanha), Lies Abouth the Truth: An Anthology of Brazilian Poetry
(EUA) e Nothing the Sun Could Not Explain: 20 Comtemporary Brazilian
Poets (EUA).