Hora remota

1.
Escarpas
(sem querer)
confundem
a rota.

Tormentas
(por missão)
cobiçam
a vela.

2.
A salvo,
o tapete exibe
trama inédita:
sequer um fio
escapa à lógica
ou sucumbe
à voracidade
dos vazios.

Já são horas.
Deve-se retomar
o esboço errante?

As quatro estações

1.
Expor-se ao néctar
e ao aroma dos jasmins:
nada é tão violento
quanto a primavera.

2.
Dos verões
tudo se esquece.
Apenas
um certo azul
persiste
em tons de asa
e ressoa porta afora
como passos
prenunciando a chave
na ranhura.

3.
Errantes pernoites
trazidos pelo vento
denunciam
a indecisão:
nem bem verão
e já tão inverno.

4.
Aconchegante,
a falsa lareira
fabrica o frio.
Só o queixo treme
sutilmente
com medo do medo.

Máscara

1.
Furtivo
um rosto
veloz
no tráfego.

2.
Meu duplo
em contemplação?

Ou ambos,
daqui a décadas,
redesenhando o cotidiano
à mão livre?

O poder enfetiçado da miragem

Era apenas
delicadeza
a enfeitar tua respiração
entre as palavras.


VERA AMERICANO nasceu em Minas Gerais. De família goiana, esteve sempre entre Goiás, Rio de Janeiro e, depois, Brasília. Estudou Letras, na UnB, em Brasília e fez Mestrado em Literatura Brasileira na PUC/RJ; foi professora de Teoria da Literatura na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro. Em Brasília trabalhou no Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC) e no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Atualmente, trabalha na Consultoria Legislativa do Senado Federal, na área da cultura e do patrimônio histórico. Publicou: A hora maior, poesia, 1º prêmio da União Brasileira de Escritores, 1970; Arremesso livre, poesia, Rio de Janeiro, Editora Relume Dumará, 2004; Viaje al reino de Cora Coralina, ensaio, El Urogallo, Madrid, 1996; Artigos e poemas em suplementos, revistas literárias e antologias.