Xibalba


I
-- a noite, ainda uma
criança (num barco azul
escuro) jogando água

(no gramado do casarão):
e dois ...s – dois ...s –
infiltrados no jardim

passam como insetos
(...) voando por sobre
o plástico grosso da piscina,
outro gramado

II
-- como dois piões brancos de isopor girando no ar, os dois ...s vacilam diante das paredes de vidro, tateando as superfícies de cima para baixo, de baixo para cima, deslocando os corpos levemente para os lados, ao sabor da corrente que chega do mar...

III
-- levada, ela desliza
para dentro
e pára na escada; (o alarme mudo);
aguarda..., como plástico
duro

IV
-- como toalha pesada, molhada,
pendurada no corrimão escuro,
ela se detém, estendida, enevoada,
no meio da escada

V
-- como se (morosamente)
lhe entregassem um envelope,
ela recebe a maçaneta da porta
entreaberta


VI
-- talvez, ali, tecidos,
panos se embolem,
encarando-a, olhos
arregalados

VII
-- como se os dois ...s, reunidos,
descessem uma mudança,
o piso se coalha de objetos,
de bonecos

VIII
-- ...atiram as mãos,
como lixeiros...


IX
-- qual saco pesado, arrebenta um álbum
e distribui retratos entre as gavetas abertas e pelo chão

X
-- (gengiva,
um terreno...)

XI
-- como um balão amarelo se movendo sem nervos,
a cabeça dele, oval, desprovida de pêlos,
provida porém de órgãos que são manchas
na pele esticada,
balança-se para a frente
e para trás no colo da mulher, sobre as fotos espalhadas

XII
-- como um desenho a giz se apaga,
ela lhe retira aos poucos o pó,
desbasta seus ossos, apequena seu corpo,
algo delgado nos braços

XIII
-- como se largasse uma colher,
simplesmente

XIV
-- como carpinteiros levando caixas de prego,
como tábuas se erguendo do chão,
a manhã próxima encaixota a casa deserta

XV
-- uma pandorga caída
no plástico da piscina, água dura:
carcaça de um bicho de espinhaço longo
e crânio colorido que ainda se debate

XVI
-- ...


SÉRGIO MEDEIROS nasceu em Bela Vista (MS) e publicou dois livros de poesia: Mais ou menos do que dois (Iluminuras, 2001) e Alongamento (Ateliê Editorial, 2004). O poema “Xibalba” integra um livro ainda inédito, Muliplicação. Reside em Florianópolis, onde leciona literatura na UFSC e traduz autores como Lewis Carroll e Gustave Flaubert. Lançará, no segundo semestre, uma versão integral da cosmogonia maia-quiché Popol Vuh, feita durante uma estada na Stanford University (EUA) e revista pelo especialista em línguas pré-colombianas Gordon Brotherston.