O fracasso como recompensa

prometo e não tomo providências
meu evangelho renegado por todas as manhãs
minha fuga dos restaurantes coreanos e dos suspiros forjados
tenho pensado insistentemente em constrangimentos noturnos
mas ainda acredito no que se convencionou chamar de suplicio
até fracassados tem códigos de ética
minha fé inabalável em possíveis viagens pra bem longe daqui
entre palmeiras e a brisa fria do fim de tarde
eu devo me deitar na solenidade da memória perdida
num quarto de hotel com nome exótico e reverente
a majestade de quem se deu por esquecido
de quem jogou fora todas as fichas
de quem sempre esteve fadado à derrota
mesmo sentado no topo do mundo
mesmo que ela dance semi nua na minha frente
que me ofereça sua nuca em sacrifício
e que derrame vinho em meu peito e deslize sua língua suave
ainda assim vou pensar que é sempre tarde demais
meu orgulho abençoado de perdedor
deixo o testamento de um loser
com duvidosa compaixão pela raça humana
como recompensa, tenho o sol abrasador
e a crença vil num evangelho porcamente escrito
só levo comigo minha inadequação e alguns poemas de Dylan Thomas
não tem mais pra ninguém

Daqui a 20 minutos, vai ser eu e Deus.



MÁRIO BORTOLOTTO é escritor, dramaturgo, diretor e ator. É diretor do Grupo de Teatro "Cemitério de Automóveis". Também participa compondo e cantando na banda "Tempo Instável". Ganhou o Prêmio Shell de Teatro de 2.000 pelo texto "Nossa Vida não vale um Chevrolet" e o Prêmio APCA pelo "Conjunto da Obra". Lançou os livros "Mamãe não voltou do Supermercado" (romance), "Bagana na Chuva" (romance), "Para os Inocentes que ficaram em casa" (poesia), "Gutemberg Blues" (textos jornalísticos) e quatro volumes com 31 de seus textos de teatro. É natural de Londrina-PR, mas atualmente mora em São Paulo.