Poemas

Fiar-se nas contas do rosário,
erguer catedrais, altares no ar,
ver mais do que vitrais em vitrais
e, em certo abril, engravidar-se.

Dispensar a pompa dos milagres,
duvidar de vetustas (batinas
ou beatas) e se manter livre,
livre da azeda palavra agnóstico.

Saber que o corpo é o pão supremo,
que corre vinho nos corações,
que são extremas todas as unções.

Acreditar em deus é bonito
(são mesquinhos os ateus) e eu,
apesar do medo, e do azul,

não acredito.
 

* * *

Surgiu verdinho novo
na pequena floreira
que vive abandonada
no parapeito da janela
lá do quarto dos fundos.
"Vou cuidar de você"
prometo a mim e a ela.
E não cumpro, e não cuido,
e evito, por uns tempos,
a janela, o meu coração.
Volto porém ao quarto,
fingindo (para quem?)
ali estar por acaso.

Nasceu pé de lispector
Em alado jardim,
berro, calado. E carmim.


* * *

hábil camareira
a maré dispõe na praia
a colcha de conchas
 

MARCELO PIRES. Gaúcho de Porto Alegre. E de 1962. Pai do João, fã do Tom Jobim. Tem dois livros infantis: Liga Desliga, Cia das Letrinhas; O Menino que queria ser celular, Ed. Francis. Tem um livro de poemas: Anotações A Partir do Meu Astrolábio, Ed. Ameopoema. Tem um livro de missivas eletrônicas (vale dizer: de troca de emails) com Leticia Wierzchowski: euteamo.com.br, L&PM. É publicitário e colaborador de revistas.