Marcas (Uma Seqüência)

1

Restam, sobre mim, como num
desafio, certas marcas de outro
dia: um calendário de anos antes,
guardado como relíquia, retalhos
e panos velhos, sobras de roupas
não vestidas, promessas de ternos,
gravatas nunca lá usadas, algumas
meias sujas, limpas outras, cuecas,
as coisas de que me despi, ao longo
dos anos e que fui para trás esque-
cendo amontoadas, coisas externas,
que não fazem parte mais de mim,
que me envolveram durante algum
tempo e até, sim, me estimularam.


2

Restam, também, certas garrafas vazias,
maldição de família, a inserção líquida
na vida de todos os dias, copos e taças,
medida da dose diária de compensações.

Sobras sobre toalhas, pão comido pela
metade, vai ficando de mim esse pobre
esquecimento de alguns ritos e outros
tantos risos artificiais, alegrias neutras

como induzidas, uma quantidade pouca
de ilusões, como se a vida natural que
aqui ainda restasse, sobre essa mesma

toalha suja, tão carcomida, substituísse
aquela que se esvai líquida e certa como
erva usada apenas por seu próprio cheiro.


3

Restam, também (sempre sobram, claro),
algumas esperanças: bilhetes de loteria
esquecidos no fundo de uma tal gaveta,
uma réstia de alho atrás da porta, sempre
aquela crença de que os dias vão passar
e os tempos vão mudar, como mudam
as folhas das árvores e se altera o nosso
gosto por frutas tenras, da nova estação.

Mas sempre volta aquele mesmo pó que
antes se levantara do chão e incomodara
nossos olhos, sempre retorna aquele vento
frio que sopra de vez em quando, sempre
renascem os mesmos gestos ágeis de dedos
a conferirem números e os atirarem fora.


4

Não restariam ainda outras marcas?
Por exemplo, alguns amores havidos,
umas emoções tantas, talvez parcas
horas partilhadas, quantos gemidos?
Sempre sobra, como marca mordida
sobre a pele em chama, luta travada,
um selo partido, golpes, ferida
aberta para nova e incerta agulhada.
Ali, quando crescem mais e mais flores
(jardim suspenso sempre se condensa
sob um céu de estrelas), certos odores
flutuam como igreja que se incensa.
Sempre sobra, como marca sensata,
o que machuca - reveses, sucata.



HELENO GODOY é goiano de Goiatuba, Goiás, e mora em Goiânia, onde é professor titular de Literatura Inglesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás e Professor Adjunto de Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Católica de Goiás. É Mestre em Teoria da Literatura pela University of Tulsa (Tulsa, Oklahoma, EUA) e Doutor em Estudos Lingüísticos e Literários em Inglês pela Universidade de São Paulo. Já publicou os seguintes livros de poesia: Os Veículos (1968), Fábula Fingida (1985), A Casa (1992), Trímeros (1993), A Ordem das Inscrição (2004). Tem, ainda, um romance publicado (As Lesmas, 1969) e três livros de contos (Relações, 1981; O Amante de Londres, 1996; A Feia da Tarde e Outros Contos, 1999). Já colaborou com Bestiário com a tradução do conto "A Aliança", do escritor irlandês Bryan MacMahon (número 6 - agosto de 2004).