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Quatro Mulheres Sem História
1. Rosa
Saco de batatas, trouxa de roupas, balde.
Rosa corta uma lasca de limão e mistura ao café.
Serve os soldados, olhando baixo,
um olho verde, outro violeta. Um pedaço de espelho
reflete a nuca
suada de Rosa, que esfrega utensílios um a um,
polindo-os com bafo quente.
Suas unhas brilham a virtude de sebos,
de carnes, de raiz arrancada.
Hoje sente um enjôo comum,
e se debruça sobre o tanque.
Os punhos fechados torcem toalhas amareladas,
manchadas de sangue.
2. Silvana
Nasceu a filha de Rosa
num quartinho aos fundos da lavanderia
e foi levada para um casebre despencando
à beira de um milharal, longe dali.
Colhe milho, aduba, semeia, sonha –
seu olhar violeta cobrindo a terra
de jasmins. Vestido de flores
desbotado e triste em meio a tempestades, silvestre
em dias de sol. Atiram-na no riacho:
Silvana está sempre encharcada:
de rio, de chuva, de suor. À noite, desaparece.
Volta sempre com fome, com sede, os pés
cheios de calos, suor escorrendo
pela nuca.
3. Aurora
Filha de Silvana, cega, ambidestra,
desde muito pequena sabe manusear o facão
com absoluta confiança,
e costurar camisas de homem.
Aurora enche as panelas
com galinhas, patos, marrecos que ela mesma
depena, e com ervas saborosas,
sangues e vinagres, condimentos picantes
que respingam nas camisas dos homens famintos.
Aurora lava, passa, esfrega, conhece
a dimensão de cada tábua, a posição de cada buraco
no assoalho. Seus irmãos esbarram nela –
Aurora aspira o cheiro de cada um,
mesclado ao capim.
4. Jurema
A filha de Aurora nasceu à noite,
do outro lado do rio,
num campo de flores silvestres.
Foi encontrada aos prantos, coberta de sangue,
nos braços da mãe morta.
Uma índia velha pegou-a para criar.
Pele bronzeada, um olho verde, outro violeta,
habilidosa com as mãos e quieta,
Jurema cresceu migrando pouco a pouco
em direção à cidade. Aos treze anos,
parou de sumir de casa. Todo domingo vai ao culto.
À noite, deitada na rede,
alisa a barriga, procura estrelas e se pergunta
que nome vai dar à filha.

FLÁVIA ROCHA nasceu em São Paulo em
1974. Fez mestrado em criação literária (M.F.A in Writing) na Columbia
University, em Nova York, e é uma das editoras da revista norte-americana
Rattapallax. Em São Paulo, trabalhou como jornalista nas redações das
revistas Bravo!, República, Carta Capital e Casa Vogue. Em Nova York,
trabalhou no departamento de poesia da revista The New Yorker. Seus
poemas, traduções, projetos editoriais e ensaios têm sido publicados em
revistas no Brasil e no exterior. Desde abril de 2004, integra a equipe da
Travessa dos Editores. Na área de cinema, é co-fundadora da Academia
Internacional de Cinema de Curitiba. |