A máquina precária

Pensemos o amor e seus mecanismos
esquivos,
imóveis ou desatados
a qualquer tempo,
ao menor ruído,
por nenhum motivo.

Vejamos o coração
(a cabeça
avessa)
como relógio
frágil:
preciso,
descompassado,
dando as horas com atraso,
acelerando o colapso
(molas indolentes,
rodas frouxas,
avarias várias).

Amor é à prova d’água?

O poeta está cansado
não de amor, de seus percalços:
jamais ser feliz de fato,
para abolir a metáfora
e falar claro.

Amor não serve ou, quem sabe,
serve
para vincar o seu rosto,
para furtar sua calma
e, sim, para a alegria
rara.

Amor é bicho instruído,
alguém dissera,
quem dera:
ignaro,
ignóbil,
réptil
roendo as entranhas estranhas,
mordendo, soprando, mordendo,
árida ironia, áspera.

Dádiva sublime e precária,
sem compreender nos ferimos,
matamos e morremos
de amor e seus mecanismos.



FERNANDO MARQUES é jornalista, doutorando em literatura brasileira na Universidade de Brasília com projeto de tese sobre teatro musical. Publicou Retratos de mulher (poemas, Varanda, 2001) e Zé (teatro, Perspectiva, 2003). Autor das canções do show Dândis – Andréa Siqueira interpreta F.M. (Brasília, 2004) e da comédia musical Últimos (inédita). Os textos aqui publicados fazem parte de projeto de livro que deverá se chamar “A dor que a gente adora e outros poemas”.