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O último cego
E nós estamos dentro, subtis, e tensos na
música
Herberto Helder, As Musas Cegas IV
Dons ateiam-se,
tateiam-se, afogados
pelos crimes do medo,
louvores se espalham
na periferia das lareiras
inventadas pelo sono.
No gesto grave,
os símbolos e os túneis
que atravessamos feito lagos,
sem remo, sem barco,
apenas com os dons estrangulados
do nosso engenho
zunindo verde-tosco,
eis o sonho em que me perco,
as vozes do silêncio
zombam de mim, da paisagem,
pirâmides, serafins
bailam Vivaldi,
o juiz me pergunta das estrelas,
e o último cego, comovido,
lê as horas em meu corpo.
Conquista
O fogo, no fundo do mar,
dançava manhoso
com as águas.
Estas, por terem visto
apenas pedras e peixes,
cederam

ANDRÉ SETTI é poeta e tradutor. Nasceu em São Paulo, mas gosta
mesmo é de mar. Estes poemas integram o livro "Teatro das Horas", a ser
publicado em julho de 2005 pela Edições K.
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