Inéditos

 

Estou a oscilar, a agitar-me, em desequilíbrio; de um lado o desejo, já com sabor a não-vida, do outro a noção do fim. Paira a ameaça sobre o corpo-depois-do-fulgor. Não há senão memória   desfibrada    incisiva    o medo desoculto de que a serpente me engula com a sua boca desproporcionada.

 

Acordo tantas vezes de madrugada, o meu coração é uma planície deserta, coração dilacerado   desesperado    inchado   cordeiro manso ou  feroz de olhos furados. Não te deites docilmente, vão roubar-te tudo, o ladrão virá de noite com as suas garras venenosas e dir-te-á

 

«Não ames!»

 

Não deixes, não deixes, expulsa-o, extirpar-te-á o fígado e ficarás o que não és e és agora, não o que fomos e somos hoje, o mistério não acontecerá como o milagre não aconteceu, o depois evitará o antes e esse será o fim, a treva, os dedos sem mãos, silêncio de eterna neve.



ANA MARQUES GASTÃO (n. 1962, Lisboa, Portugal) é poeta, redactora cultural do Diário de Notícias e crítica literária. Advogada, licenciou-se na Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas. Escreveu Tempo de Morrer, Tempo para Viver (1998) , Terra sem Mãe (2000), Três Vezes Deus, em co-autoria com António Rego Chaves e Armando Silva Carvalho (2001), Nocturnos (2002) e Nós (2004) sobre obras de Paula Rego. Integra várias antologias e tem representado Portugal em diversos eventos internacionais. Editou no Brasil uma antologia pessoal intitulada A Definição da Noite (Escrituras, 2003).