A flecha

Ao acordar, depois de ferido na face pela flecha da ágil Iracema, o estranho guerreiro branco viu que a praça, a rua, as pessoas no calçadão e os carros na avenida beira-mar continuavam ali em frente – movimentando-se com o mesmo ímpeto da flecha arremessada.


A sumaúma

No alto amazonas
entre matas densas
a sumaúma assoma.

Raízes tabulares
imensas feito uma
harpa de cordas tensas
se lançam aos pares.

O poeta disfarçado
de curupira bate
nela os calcanhares
para fazer ressoar

a melodia da tarde
o lamento da terra
a vertigem dos ares

quando lá nas alturas
ruge a tempestade
e no chão a motosserra.



ADRIANO ESPÍNOLA é autor dos seguintes livros de poesia: Em trânsito: Táxi/Metrô (1996), Beira-Sol (1997), Fala, favela (2ª. ed., 1998) e O lote clandestino (2ª. ed., 2002), todos pela Topbooks. Pela mesma editora, publicou o ensaio As artes de enganar (2000), sobre Gregório de Mattos. Atualmente leciona na UFRJ e integra o Conselho de Literatura da FBN.