Ilustração: Adi Holzer

NOITE DE INVERNO




Caiu neve. Depois da meia-noite, bêbado de vinho purpúreo, deixas a zona sombria dos homens, a chama vermelha do seu lume. Ah, a escuridão!

Geada negra. A terra está dura, o ar tem um sabor amargo. As tuas estrelas juntam-se e formam sinais malignos.

Com passos duros caminhas ao longo da linha férrea, de olhos redondos, como um soldado que ataca uma trincheira negra. Avante!

Neve amarga e lua!

Um lobo vermelho a ser estrangulado por um anjo. As tuas pernas tilintam, a andar, como gelo azul, e um sorriso cheio de tristeza e arrogância cobriu-te o rosto, e a fronte empalidece com a volúpia da geada;

ou inclina-se em silencio sobre o sono de um guarda que se deixou cair na sua cabana de madeira.

Geada e fumo. Uma camisa branca de estrelas queima os ombros que a vestem e os abutres de Deus dilaceram o teu coração metálico.

Oh, a colina de pedra! O silêncio derrete, e esquecido jaz na neve prateada o frio corpo.

Negro é o sono. O ouvido segue longamente os atalhos das estrelas no gelo.

Ao despertar tocavam os sinos na aldeia. Da porta do levante nascia, prateado, o dia rosado.

Tradução de Roberto Schmitt-Prym


GEORG TRAKL, poeta austríaco, nasceu em Salzburgo, em 1887. É um dos mais importantes nomes da poesia de língua alemã do século XX. Sua juventude foi marcada pela leitura dos poetas malditos franceses, como Rimbaud e Baudelaire. Consumidor regular de entorpecentes, nutriu paixão incestuosa pela irmã. Após diplomar-se em Farmácia, serviu no front em Grodek, durante a I Guerra Mundial, fato que o marcou profundamente, levando-o ao suicídio, por overdose de cocaína, em 1914. Deixou dois volumes de versos, Poemas e Sebastião em Sonho.