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POR UM MOVIMENTO LIVRE
Um movimento livre. Um animal livre.
A mancha de um rosto destacado de um espaço puro.
A liberdade diária sem adubo.
A terra livre levada livremente às mandíbulas.
O contrato natural da mão com o astro.
A estrela pasce no campo nu de um rosto.
O braço das raízes que moldam o orvalho.
A nomenclatura solar dos insetos no pasto.
A consciência no corpo. A língua nas palavras.
Um fala livre que nos devolva ao todo.
Um vôo livre. Livres as asas de cobre das árvores.
O desenho de um deus esculpido pelas folhas do outono.
Uma ascensão livre sem trégua.
A liberdade de abismo que a laranja azul enceta.
Um dorso. Uma pálpebra. Um cílio de erva.
A corrente vegetal que une o cometa ao mar.
O percurso da alma que já nasce aberta.
Flor de cinco faces que ilumina a terra.
A liberdade do sangue livre e leve das pedras.
Rastro sem dono. Movimento sem fim.
A navalha da carne que nunca começa.
Lâmina langorosa do beijo que a desperta.
Transparência cavada na carne das muralhas.
Uma habitação livre. Gazela de líquen.
A felicidade de um corpo em queda.
MANHÃ NEGRA, AÇÚCAR, BEBO O ORVALHO DE UM ROSTO
Este açúcar negro que despejo em uma manhã de agosto
É o suor de uma face sulcada pela selva.
Diluo lentamente a sua carne no café que exala
O sangue macio, a menstruação de luz, a primavera,
A pele perfumada, o hálito da boca em brasa,
Sua resina que se granula sob a pálpebra da lua,
No seu fundo se deposita e ainda se conserva.
A arquitetura porosa dos ossos se traduz em um só gosto.
As fibras da língua e a saliva se preparam para a flor
Ceifada do todo e, despicienda, retida entre as mãos, em seu aborto.
Imolo a sua doçura no pavilhão da xícara, e ele,
Prestes a mergulhar em mim e, em uma só carícia cega,
Povoar-me os sonhos e rechear-me o interior de cada célula.
Dissolvo-o vagarosamente nos giros da moenda.
O aroma se desprende e enche toda a sala:
Mãos diáfanas com suas linhas feitas a faca,
Costas estriadas em arabesco como um cesto de vime.
Pausado, levo a emulsão aos lábios e desfruto
A repetição de mais um ritual civilizado
Como quem em plena luz comete um crime.
PAÍS INÉDITO
I
Não adio a aurora das plantas.
Sou pão e trigo a ser multiplicado.
E se o amor não pode para além do fruto,
A eternidade repousa nesta lâmpada,
Em seu inverso, maçã que se abre
Em um paraíso convexo.
Assim bebo a teia, sua arquitetura,
E sopeso a noite que se desprega da minha carne.
A virtude não compensa o sol que fenece.
A madrugada eclode das pedras, seus fantasmas,
O homem marcha contra as quilhas e se despe.
Sabe que sua sombra desliza no limiar da fábula.
As ondas desenredam a mente, compõem um arco-íris
De águas precárias, trêmulas, imóveis.
Eu sou o pão a debruar o milho.
A serpente que cega tateia o paraíso.
Resta a obra: diamante quase lava.
Minha carne que feliz expele o espírito.
O que desperta as árvores, preces de ágata,
E escorre pelos olhos de uma floresta magra.
Talvez adie minha morte com as palavras.
Talvez só nos reste o que os anjos nos confiam.
A frase seca na língua fina do lago
Em doce comunhão aspira ao zinco.
Sou um projeto a se cumprir,
Pétala perfilada em cera e líquen,
E de tudo restará talvez um mapa:
Percurso natural do que em mim desperta
Quando as estrelas no mar se suicidam.
II
Boca e lábio que me comem.
Domínio do sal que me prepara.
Eis o sacramento da noite.
Dou ao sol um sol mais claro.
Não falo das algas.
Esteio e fonte das palavras.
Aguardo o triunfo dos insetos.
As pegadas das estrelas
São de deus dormindo na gruta de um eco.
Olha a videira.
A ampulheta ronca sua glória.
Os minerais não se ausentam do mistério.
Apenas a face de Deus eles ignoram.
O espelho come a terra, sempre virgem em seu útero.
Prematura a razão quer vergar os arbustos.
Eu conheço o olho azul das mandrágoras.
Eu conheço a boca incompleta das trevas.
Todo seio quer o sorvedouro, a foz, a navalha,
Um rosto debuxado na pirâmide das feras.
A voz animal do homem
É quem canta quando agonizo e morro.
Dela nasço para a consciência
E nela me movo, ventre musical do Todo.
Sou o toldo do sol, partitura de pedra e onda.
Compartilho a luz desta manhã,
Porque o coração desperta mais cedo que a cabeça.
Teu vestido nunca é novo para os rituais do fogo.
Amor, esquece a alma, que toda a perfeição nasce do corpo.
III
A rua que começa é habitável.
Rastro tecido por um deus,
Obra delicada de seus braços.
Os recifes do canto não litografado.
A voz se desdobra em mapa: carbono e face
Resumidos no traço de uma só gazela.
A gravitação do sol é um olho de pedra.
Obelisco onde o espelho do céu se eleva.
Contemplo cada detalhe da paisagem.
Enquanto o lagarto suporta o peso do rio
E o cobre noturno veste a papoula,
Hálito branco das ervas.
Dedos aromáticos se inscrevem na xícara,
Um território vivo em mim se arma.
Não é silêncio nem é ternura este combustível
Que me queima por dentro como a lua.
Não é o grito que se conta na rotina das ondas
Que se anulam sem sentido contra um animal que sonha.
Há que se trazer na sede outros vazios.
Há que se debruar com os olhos esta mulher de limo.
Cadência de uma enseada ainda interdita,
Luz além da luz de um horizonte cego,
Contornos de um Universo que prossegue embora extinto,
Bandeira que me desfralda um país inédito.
V
Sei que todas as coisas têm peso.
Por isso não amo o seu centro
Mas o que escapa a seu ímã sem sair de seus nervos.
O coração é uma vogal, quebrada entre gravetos.
Só pulsa na iminência do espinho.
Porque se é incompleto quando o que ama não lhe acende
Está morto se recorda que a falta é tudo o que lhe coube por destino.
V
Recolho as sobras da areia e as franjas do mar.
Não se deve aplacar a sede que move as estrelas.
Acaricio o dorso das pedras
E sinto o pulso dos insetos da primavera.
Tudo o que se mastiga vem do fogo.
Mas a água só a água pode gerar um mundo novo.
Percorro as linhas do teu rosto e navego o hieróglifo das plantas.
O mais é pão que não se fatura.
E a felicidade que prescinde de balança.
RIO ESPESSO, SOL, CORAL DE ESTÁTUAS
I
Também o sangue é um rio espesso,
Vértebra acesa no começo da lua,
Por mais que o sol negro recomponha toda a flor
Ao roteiro do néctar que nele circula,
Sempre resta um campo inaugural, intocado,
Sob o fremir dos ossos do deserto.
Salvo a seiva, mais real que o fruto que a tem sonhado,
Névoa que emoldura o infinito
E nele assaz recorta um rosto duplo,
Circulação do horizonte em outra teia,
Tela que lhe devolve à origem de seu curso,
Avesso da alma ou carne imortal que lhe cavalga o dorso,
Nada foge à matéria e a seu imperativo:
Trama de pão que em si renega o trigo.
E quanto mais enaltecemos o pólen negativo
Que refaz em toda ave o próprio vôo,
Mais distante os passos seguem
Da meta de luz migrante do sol posto.
Alquimia, rota nômade do linho em cada artéria,
A linfa da flor que se desprende em delta
E me percorre as veias e me desperta a pele
Com a extinção feliz de cada pétala,
Sob o peso da mão de uma criança
Celebra a afirmação da morte enfim liberta.
Assim padeço da concordância plena, além da treva,
Assente em tudo o que a eternidade molda
E devedor de tudo o que a carne abraça e zela
Ao se deitar no crepúsculo de um corpo,
Tal como esta flor, reticente, sempiterna,
Somente ao se fechar em si de si desperta.
II
Os dorsos de pedra não têm autor.
Foram esculpidos pela maré de réguas
Que produz em seu seio o efeito de seu vôo.
As vagas se renovam, contra a vontade da pele.
A transpiração das estátuas adere
Ao ar e ao enxofre calcário do suor dos mortos,
Motor de água invisível que move o globo.
E na mecânica de fios que movimenta as éguas
E faz a engrenagem do ar se recompor
À fina fatura das mãos magras do poeta.
O giro das folhas não tem dono.
A camisa fatigada de se estufar com o corpo.
As estátuas não têm origem, autoria,
Nome que se rubrique em suas células,
Cálculos ou rins, autógrafos, espáduas, ancas, corsos.
São filhas do oceano lento que aniquila,
Fulmina os mortos e escalavra em suas pedras o meu rosto.
Mar que não refaz as algas que decifra.
Leva para sempre o que for brilho e adorno.
Deixa só essência, suas fibras, musculatura, osso.
III
Meu corpo é tudo o que tenho.
Por isso sempre digo: corpo.
Essa precariedade que funda meu reino
E sem a qual não me comovo
Com a morte das estrelas em seu sorvedouro.
Um intestino, um copo de membros,
Algumas poucas linhas delimitam um rosto.
Essa pobreza é tudo que tenho.
Museu de músculos verdes, vasculares,
Veias, peixes que respiram no pulmão das casas,
Esse incêndio provisório que carrego pelas ruas,
Cão diário que se leva a esmo, sem dono.
Sem vergonha, me exponho:
Édito, precário, claro, tangível.
Braço, perna, clavícula e tronco com que me assomo
À janela dos vivos e como sua comida e bebo sua bebida.
Como num sonho.
Este sol vermelho: é tudo o que tenho.
As sílabas procriam a ramagem do vento, seus cabelos,
A palavra, sua irradiação, suas cicatrizes,
A ferida amável que não se resolve em alma.
É isso. Tudo o que tenho: corpo.
O declive onde a consciência se abisma e se apaga.
Depois nada.
ALFABETO DA TERRA, PULSO DAS PLANTAS E PEDRAS
I
É preciso que um deus morra para que o mundo amanheça.
A circunferência das estátuas. O meio-dia tranqüilo.
O oxigênio que queima dentro da coluna clara de um grito.
O ronronar mouco das vozes que se desprendem dos sapatos.
Muitas cadeias. Cadeias inumeráveis. Soldam o céu ao pântano centrífugo.
Cristais que se partem. Outra esfera de luz.
Outra é a vocação da íris e do helianto. Uma pupila.
Sua sombra de pedra que escalavra um ninho entre escamas.
E morre ao cruzar o pulmão escuro dos prédios.
Algo em mim se inclina e sucumbe.
Bato à porta da origem. Uma constelação se abre.
O alfabeto da terra é uma sinfonia que arde.
O cadáver de madeira sobre o qual o dia desliza.
Podemos chamá-lo: terra. Podemos chamá-lo: astro.
Toalha e oásis. O mundo arfa e autografa as pedras.
A escrita é anterior à voz e ao verbo.
A escrita é o que havia antes de haver universo.
Não a palavra. Não o signo que aspira a eterno.
Não a voz de graveto de um deus vomitado de uma caverna.
Como as folhas de vento. O outono reverbera.
Há uma placidez canina nas ervas. Uma selva de omoplatas.
Ama esta face. Seu trajeto de água. Ceva-te de seu sangue.
Pequenas pétalas sorvidas pela chuva que flui entre as vértebras.
Porque nela nada se completa e tudo é entrega.
Esculpida em calhaus as tranças verdes de Eva.
Aqui me preparo. Sou zinco dos deuses. Sono habitado.
Luz que o sol refrata e congela. Não um poema: um rastro.
Diz a luz. A graça das formas gastas. Seu resíduo no tato.
O vaso de sombra que explode na sacada.
Palpa o vestido líquido das algas. Suas entranhas e halos.
As teclas de pólen. Os faróis vermelhos das células.
Algo em mim se eleva. Não é a razão assassina.
O pacto que toda a mão lúcida trava com as trevas.
Mas apenas um homem. Aquilo que sou.
No ponto mais distante daquilo que o rosto revela.
Uma carne onde a consciência se espelha. Um animal que erra.
Corre contra o horizonte. Dissolve-se em brisa.
Crava os dentes na presa de ouro. Engole o silêncio.
Traga a fuligem a argila a terra. E cospe seu néctar.
II
Um animal que respira com luz própria.
Essa é a definição de universo.
Fluo em suas veias. Transpiro seu sêmen.
Estufo suas grades de ossos salientes.
Pedras negras na barriga de um inseto.
Não vejo o mundo. O que vejo é uma fenda.
Um feixe de objetos e membros ao alcance da mão.
Se digo: mundo. Divago. Perco-me num oceano.
Faces e tentáculos que voam em busca de espaço.
O mundo não existe. Existe mesa régua lua esquadro.
O osso aceso com que limpo a água dos mortos.
Flauta de sangue. Sutil aqueduto de barro.
Eu: incêndio da primavera em uma esquina. Parado.
Posso dizer um homem. Um quadro.
A geografia de sua cabeça sob um sol de plástico.
Digo seio. Digo pegada. Para dizer árvore.
Porque os vivo no lastro que a língua deixa na estrada.
Essa combustão de sílabas. Essa promessa.
De algo que seja algo além de uma carne em conversa.
Borrifo teu sangue. Adoro-te, deus das velas.
Trajeto que une o céu ao céu em sua seta.
Não falo claro. Não toco a urna de luz ou seu cacto.
A pausa das aves o girassol e seu hálito.
Sol além do sol enterrado em um lago.
Todas as imagens fogem. Tua silhueta migra.
A pegada de um astro é o que nos resta de enigma.
O mundo fende o ventre da papoula com o dia.
Sigo desperto entre estrelas e lâmpadas abatidas.
III
Não direi que sangro o ouro dos campos.
A linguagem quer se evadir de si mesma.
Cuspir na cara de quem a toma por presa.
O sabor da serpente e da fruta fica na pele.
Encontrarei uma voz ou um poço.
Um pulmão que queime sem trégua.
A água crescente que estoure sua cela.
Não falo de nada. Nada vive para ser dito.
As fábulas não são para serem contadas.
O mito só existe reencarnado.
Há uma frescura mais simples no avesso da fala.
Manhã, vegetal mais livre e geometria mais certa.
Animal mais claro que minha voz prepara.
Arma o bote e explode suas cores em leque.
Ressuscita a assinatura rupestre das nuvens.
Para que bebamos a fonte o líquen as pedras.
E a cada batida do pulso das plantas
O universo recomece.
O QUE CIRCULA PELAS VEIAS DO CRISTAL
O que circula pelas veias do cristal
O que os cachos do sol escondem sem ser cartografado
O que o silêncio da pedra transpira em halos de metal
O que o oceano atinge ao navegar o barco
O que o horizonte tapa com suas válvulas de água
O que prescinde de mãos e de palavras
O que vive alheio ao coração que pára
O que persiste indiferente ao olho que se alaga
O que dá curso às aves e suspende o suicida em pleno vôo
O que está por trás da máscara que se cola ao rosto
O que está no passado da infância e no instante do ovo
O que o diamante sonha em sua língua muda
O que o pão decifra na saliva da luz
O que a estrela pulsa e expele sob o lago
O que a pele sorve e o que a areia acende
O que a fonte desenha e o que a brisa fecunda
O que o pólen ama e o que o pássaro costura
O que para além da carne e da morte ainda circula
O que a boca sem dentes no vácuo ainda tritura
O que a forma humana sob outra forma embrulha
O que sendo divino em terra se transmuta
O que a semente explode e o que a paisagem debrua
O que o mistério mastiga em sua mandíbula de lua
O que o céu rapta e o que o animal captura
O que as mãos não tocam e o que o sexo perfila
O que o húmus exala dentro da escultura
O que a ferida abre e o que a matéria insula
O que a morte redime e o que o sol menstrua
O que o animal decifra e o que a criança capta
O que o olho apalpa e o que foge de sua órbita
O que sorri sem boca e o que o tempo não doma
O que Deus não sonha e o que o homem não escuta
O que o silêncio verde e o que o ventre aduba
O que a flor celeste e o que a terra estua
O que o coração lua e o que a página flama
O que o campo explende e o que o sol trama
O que vive da luz e o que de luz morre
O que na própria extinção se transfigura
A PRIMAVERA ESTRAGULA SUAS MESSES
A primavera estrangula suas messes.
E tudo se dispõe em sua comunhão elementar.
Formas inaugurais giram no abismo,
Se desprendem do cardo, da papoula, do azeviche,
Migram entre anjos de compleição solar,
Heróis de enxofre e outros seres.
Sombras reviram túmulos vazios
E no tumulto dos átomos que dançam
Na noite prematura se aniquilam.
Homens de barro
Tangem notas em suas flautas rumo ao Letes
Cerzem coroas de louros em suas fêmeas
Erguem templos em teu louvor, Apolo.
Trinam patas de potros alados
E da terra estoura uma rosa branca em cada poro.
Tântalos disformes se desfazem contra a brisa.
E tudo é numérica concordância de cristais
Que sob a terra arrebentam sua graça
Se fundem na partilha universal
Dos astros que despertam em silêncio
Entre nuvens de chumbo se perfilam
E ninhos de fuligem acolhem pássaros:
O dorso ágil em espiral rufla pétalas de ouro
Que repousam incontáveis e infinitas
Dentro do sono.
Fujo do teu reino
Cavaleiro que festeja mais um campo conquistado.
Carros transbordam de trigo e de pâmpanos.
Mais um diadema engastado na tua coroa de lata miserável.
Torções de Apeles.
Nuvens lúbricas rejubilam
Contra o espelho de cristal que envolve Hermes.
A felicidade de números dispersos farfalha
Sua música de ave pelas folhas das árvores.
Não há boca que aplaque essa sede antiga.
Não há forma que dê forma a esse ser diverso.
Não há emblema que narre o percurso desse dia.
Não há leis para o êxtase geométrico
Das palavras suaves que me disseste
Temperadas ao ouvido sibilino
Sangue de ventre rubro que circula
Pelas artérias do cosmos insurrecto
E dá unidade às metamorfoses do divino.
Anjos de nomenclatura simples,
Faces de adaga tecendo vestidos com suas flautas,
Espíritos de luz desencarnada,
Corpos sobre corpos em caixa de ecos,
Paisagem natural e fonte submersa,
Almas na moenda, rápidas e volantes,
Almas em turbilhão de cinzas,
Torres vasculares reverberam sob crinas de fogo.
E uma criança que em um canto só aguarda
A inauguração do mundo pelo Verbo.
MÁSCARA MORTUÁRIA DE AQUENATON
Quanto mais o tempo passa mais o passado se amplia na memória
E o horizonte se afunila nessa luz oblíqua do sol posto:
Aves e silhuetas migram rumo à sombra original que se anuncia
Presas ao eclipse de nuvens que varrem o céu em uma marcha monótona.
Viajante: olha nos meus olhos vazios e vê o pó que se conserva dos meus
dias.
Trava o pacto natural que nos irmana nesse ninho de trevas carcomido pelo
nácar:
Insígnias douradas e outras tantas datas que o destino por descuido nos
deixou.
Contempla os vermes que implodiram a minha carne enrijecida.
Envaidece-te de ver as estrelas e da seiva de tua veia macerada.
De tudo restará talvez o nome.
E os monumentos que meu Império ergue no deserto
Não duram mais que as pegadas de um homem.
Em breve estarei a sós com minha verdade irredutível.
Olho cada um dos que à minha volta se renovam
Como quem já não guarda mais nenhum lastro com os vivos.
Sei que ainda estarei aqui sentado
Por muitas e muitas vidas que se fiam.
Outro será o rosto em mim gravado.
Atrás de muitas máscaras hei de expirar ainda:
Diverso de mim mesmo, no espelho desse lago,
Sempre idêntico a mim mesmo
Na eternidade do instante que declina.

RODRIGO PETRONIO nasceu em 1975, em
São Paulo. Desenvolve pós-graduação em Literatura Espanhola na Faculdade
de Letras da USP sobre a obra de Luis de Góngora. É professor de
Literatura Espanhola e Hispano-Americana no Centro Universitário de Santo
André (UniA) e professor/coordenador, junto com a poeta Dora Ferreira da
Silva, do Centro de Estudos Cavalo Azul, onde ocorrem cursos de história
da arte e filosofia. Trabalha com tradução e edição de livros e trabalhou
com leitura crítica de informações para o jornal Folha de S. Paulo.
Colabora com regularidade para diversos veículos da imprensa e recebeu
prêmios nacionais e internacionais nas categorias poesia, prosa de ficção
e ensaio. Tem ensaios, poemas e contos publicados em revistas brasileiras
e estrangeiras. Participou de encontros de escritores e festivais de
poesia em algumas instituições brasileiras e em alguns países do exterior,
como Portugal e Espanha. É autor dos livros História Natural (2000),
Transversal do Tempo (2002) e Assinatura do Sol (2005), publicado em
Portugal. Prepara dois livros novos, de poemas e contos, sem data de
publicação definida. |