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Alhures
COMBUSTÃO
aét
as
p la vr a a s
s e
d e i v l sso m
MUDO
A linguagem é tudo
para o homem, não há mundo
fora dela, a linguagem
me recobre, e quando forço
a passagem, quando forço
o que em mim diz “não posso
mais”/ caio
fundo
poço
de silêncio murro:
MUDO
DEJETOS
O homem pensa, fala, e se é algo
é pela palavra.
Mas o SOLTO é mudo.
Todo esse esforço de linguagem:
mais próximo da página
do que supunham os poetas.
Salto
da linguagem,
não-falo.
Como o fogo deixa cinzas,
eu deixo esses versos.
A poesia: dejetos.
CORTE
[ ]
La vraie vie
est absente.
] [
Mas onde
é isso?
Na Abissínia?
Na morte?
[EU NÃO VOLTO!]
] CORPO [
Partindo do princípio, eu desisto
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO

RENATO REZENDE nasceu
em
São
Paulo
em 1964.
Em 1989,
formou-se
em
literatura espanhola
pela
Universidade
de Massachusetts, Boston, defendendo
tese
sobre a
poeta porto-riquenha
Julia de
Burgos.
Viajou
extensamente
pelo Brasil e
pelo
mundo,
tenho
vivido e
estudado
nos
Estados
Unidos, Espanha e
Índia.
Atualmente
mora no
Rio de
Janeiro.
Como
poeta, é
autor de
Aura
(2AB,1997),
Asa
(Velocípede,
1999),e
Passeio
(Record, 2001),
entre
outros.
Recebeu a
Bolsa da
Fundação
Biblioteca
Nacional
para
obra
em
formação,
1997,
categoria
Poesia.
Também é
autor de
Memórias
e
curiosidades
do
bairro
de
Laranjeiras
(1999),
Avenida
Rio
Branco
–
um
projeto
de
futuro
(2002) e
Praça
Tiradentes: do
império
às
origens
da
cultura
popular
(2003). Colabora
como
crítico
de
poesia
para os
suplementos
de
cultura
dos
jornais
O
Globo
e
Jornal
do Brasil. Tradutor, verteu
poemas
de Raul Bopp e
Ferreira
Gullar
para o
inglês, e
poemas
de William Blake, C. Day Lewis, Coleridge, Wordsworth, Amelia Biagioni,
Juana Bignozzi, Joaquín Gianuzzi, Roberto Juarroz, Leónidas Lamborghini e
Francisco Madariaga,
entre
outros,
para o
português;
além de
vários
artigos
e
livros
de
filosofia,
história
e
arte
contemporânea.
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