EXCESSO

Quando se quer
da distância fazer
perto.

Quando se inventa
do outro
a melhor parte.

Quando se toma a lonjura
e por certo, se tem do incerto
aquilo que não sabe.

Quando se inventa na espera
o que adivinha
ser pelo excesso a linha do baraço.

Quando a ausência vacila
no silêncio e traz de volta
o fogo no regaço.





BOSQUE

Quanto mais o teu
corpo
adensa a mata

Mais no bosque
do meu
se adensa o dia

Emboscado o lobo no prazer
correm nas pernas
os dedos que as desviam

Quanto mais o teu pouco já é muito
e o meu muito
sempre pouco à tua beira

Acossada a fera no prazer
dá a beber
o grito que se esgueira


MARIA TERESA HORTA nasceu em Lisboa. Frequentou a faculdade de Letras da Universidade Clássica. Jornalista, crítica literária, tornou-se a primeira mulher a exercer funções dirigentes no cineclubismo em Portugal. É conhecida como uma das mais activas feministas portuguesas. Estreou-se na poesia em 1960 com Espelho Inicial, tendo sido um dos poetas do conhecido movimento Poesia 61, com Tatuagem. Na década de 60 teve sobretudo uma intensa criação poética: Cidadelas Submersas, Verão Coincidente, Amor Habitado, Candelabro, Jardim de Inverno, Cronista não é Recado. Publicou em 1971 Minha Senhora de Mim, proibido de imediato pela polícia política, e em 1975 Educação Sentimental. Nos anos 80 edita Os Anjos. Destino e Só de Amor saem em 90. No romance surge com Ambas as Mãos Sobre o Corpo em 1970 e no ano seguinte, conjuntamente com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, escreveu Novas Cartas Portuguesas, que lhes valeu um violento processo judicial "por ofensas à moral pública". No domínio do romance destacam-se ainda Ema e A Paixão Segundo Constança H.