SONETO 761 DO CARRASQUINHO

Crianças, no manejo da chibata,
são mais encarniçadas que um adulto.
De berço ou órfão, fútil ou inculto,
o infante, castigando, se arrebata.

Que a vítima, amarrada, se debata
ele acha mais gostoso, e nada oculto
é o riso, gargalhado como insulto,
na boca do moleque que a maltrata.

Punido, alguém mais velho sente a ofensa,
além da dor, enquanto o relho estala
brincando, até que ao braço o esforço vença.

A cada chibatada, quem vai dá-la
agrava muito mais a atroz sentença,
pois ri, diz "Yeah!" e ainda chupa bala!


SONETO 999 MOLHADO

Antigo manual ensina como
se deve flagelar a negra escrava
até que aceite o pênis que lhe escava
a boca, sem de náusea vir-lhe o assomo.

Jamais domei assim bocas que domo
apenas com palavras: quem tem brava
postura impõe-se, mesmo se não lava
a pele, antes a casca do seu pomo.

O nojo provocado pelo cheiro
de mijo ou de sebinho não evita
que a língua funções tenha de chuveiro!

Se como "filosófica" é descrita
da fêmea a tolerância oral, inteiro
penetro-lhe meu órgão que cogita!



GLAUCO MATTOSO
é pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, poeta paulistano nascido em 1951. Portador de glaucoma (doença que lhe causou a cegueira em 1995 e da qual tirou o nome literário), revelou sua rebeldia entre os chamados "poetas marginais" da geração 70, com seus temas agressivos e transgressivos. Depois de perder a visão, passou a dedicar-se ao soneto e à poesia de cordel, formas rigorosas de versificação nas quais continua extravasando sua revolta. Mas o poeta maldito também faz pausas para refletir sobre temas mais amenos e positivos, como os cães de estimação, os pássaros, os pratos apetitosos e o carinho pela cidade em que nasceu, à qual dedica haicais, glosas e sonetos memoráveis.