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POEMAS INÉDITOS
E ESTA LUZ,
esta luz que cega?
Quem, na adega
ou na vindima
a adivinharia?
-intactos vodka e vinho
Só viver
já embriaga
AMARCORD
Ficou sendo só brisa
quando podia ser vendaval
nosso amor.
Este arrepio.
Esta música que vem das estrelas
(ouvir é pertencê-la?)
Abraço prestes a virar rancor,
Rancor a ponto de tornar-se nuvem.
Esta saudade.
Este silêncio que da saudade queda.
Ficou sendo lâmina cega
quando podia ser punhal,
cortante,
desbravando as noites, tudo.
Luz de velas.
Perfume.
Esta nuvem, passível de esquecimento.
Um acontecimento
que se destaca da lembrança
e vem acariciá-la,
permansivo.
Ficou sendo só brisa
Quando podia ser vendaval.
NA ESTAÇÃO
Dois ou três de nós, na calada
do desassossego, ávidos e primeiros,
embarcaram, silvos longos, silvos breves
-o interlúnio prestes a chegar ao fim-
acomodados em poltronas próximas
Disse o mais velho:
"esta viagem não leva a parte alguma,
mas não pode parar"
Mesmo não os tendo, via antílopes na planície,
soltos, aéreos, levitantes,
fora do alcance da memória
Por um fiapo de sonho o mais novo
escondia seu tesouro na enseada,
entre uma onda e outra
Até que um movimento brusco recoloca-os nos trilhos
junto com o trem, em direção ao caminho mais longo
coração em plumas, impróprio ao ludíbrio
espalhado no ar, em princípio opaco, que ainda podem
-o mais velho e o mais novo-
respirar

FABRÍCIO MARQUES nasceu em 22 de novembro de 1965, na cidade de
Manhuaçu, leste de Minas. Poeta e jornalista, concluiu em 2004 doutorado
em literatura comparada na UFMG. Reside em Belo Horizonte,
onde editou o Suplemento Literário de Minas Gerais de janeiro de 2004 a
fevereiro deste ano. Publicou Samplers (poemas, editora Relume Dumará,
2000, Prêmios Culturais de Literatura do Estado da Bahia), Aço em flor: a
poesia de Paulo Leminski (ensaio, Autêntica, 2001), Meu pequeno fim
(poemas, Scriptum, 2002) e Dez conversas (entrevistas com poetas
contemporâneos, edição bilíngüe, Gutenberg, 2004). Participa das
antologias Na virada do século: poesia de invenção no Brasil (orgs.
Cláudio Daniel e Frederico Barbosa, Landy, 2002), e Poesia em movimento
(org. Jorge Sanglard, Editora da UFJF, 2002). Também integra Os cem
menores contos brasileiros do século (org. Marcelino Freire, Ateliê
Editorial, 2004). |